•25/08/2016 • Deixe um comentário

Se eu não parar de beber, eu vou morrer.

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O tempo não passa

•03/08/2016 • Deixe um comentário

O tempo não passa.

Meu olhar se perde na imensidão diminuta de um teto branco cor de gelo, cuja cor  fora fruto da escolha de um parente que já não está mais aqui. A camada de tinta velha e repleta de manchas é adornada por preguiçosas teias de aranha, que caem largadas e puídas pela ação do vento e do fato que, muito provavelmente, as aranhas que as construíram já morreram. O ciclo de vida e morte delas, caçando os insetos que invadem meu quarto, é provavelmente rápido, e é perfeitamente capaz que algumas daquelas teias tenham sido feitas ainda quando eu nem era nascido, pois as manchas de descuido e as portas rangendo nos armários abarrotados de velharias se acumularam enquanto eu crescia. O mais plausível, entretanto, é que todas as teias que eu consistentemente vejo penduradas no teto se degeneram e são reconstruídas por novas gerações de aranhas, netas e bisnetas das muitas que contribuem para que essa paisagem estática me dê a noção de que, aqui, deitado e olhando para o teto sujo, manchado e empoeirado do meu quarto, o tempo não passa. 

Haveria de se perguntar os motivos da minha ilusão de que o tempo não passa, dado que a física mais moderna é inexoravelmente cada dia mais precisa em desvendar os mistérios do mundo, e a precisão de um segundo é atrelada não mais à sensação pessoal ou a um arbítrio algo cultural ou subjetivo, mas sim ao desencadear de diversas liberações radioativas de átomos do isótopo 133 do césio. Outrora já fui impressionado pelo modo como essa precisão é não ontológica e ao mesmo tempo uma maravilha da ciência moderna: desatrelamos a realidade de nossas subdeterminações pessoais e tornamos o mundo um lugar que funciona – ironicamente – como um relógio, onde cada engrenagem se liga e depende de uma peça menor, interligada por sua vez a outras engrenagens e mecanismos. Entretanto, hoje observo esse avanço com total desprezo, dado que, nada me convenceria de que o salto entre a sensação pessoal jamais foi dado, e que, aqui, no meu quarto, o tempo não passa. O universo inteiro não se move, não se dilata e nem se contrai, mas permanece nesse perene estado de permanência, e todo o sentido – seja o vetorial ou o existencial – desvanece nesse eterno segundo que cisma em não passar e faz do isótopo fiel da balança dos físicos um escárnio constante. O tempo, aqui, não passa e nunca passou.

Sobraria a alguém de bom senso perguntar o motivo de minha necessidade de fundamentar tal ilusão do segundo eterno através da destruição de um sistema tão primoroso e rígido de verdades. E a esse ser de pleno bom senso e mais profunda  hipocrisia moral, eu responderia: para mim, a vida já não faz mais sentido. Antes que eu me enverede pelo sentido existencial, me deterei ainda na brevidade técnico-prática do relógio, pois a analogia inicia nela – o tempo não passa – e passa para a vida em si – o universo como o relógio dos físicos – de modo a findar uma questão simples. Qualquer realista empedernido, do alto do seu pedestal moral disfarçado de saber estabelecido, me diria que o universo avança e que o tempo passa independente de nossa vontade, o que me daria exemplos claros da progressão das coisas. Até mesmo o ciclo infindo de aracnídeos sucessivos enfeitando o teto imutável do meu quarto com sujeira, insetos mortos e teias serviria como exemplo. Entretanto, eu objetaria da forma mais simples: uma sucessão de eventos não constitui, necessariamente, uma continuidade, pois à continuidade é conferida a qualidade essencial de ser ontologicamente progressiva em algum grau, seja de acúmulo ou de avanço, e nem as aranhas tecem teias para chegar a algum grau maior, tampouco o universo sucede em eventos diversos – das estrelas mais flamejantes as subpartículas mais ínfimas, não há progressão. Em outras palavras, o ponteiro do relógio não avança, ele apenas sucede sessenta estados distintos que subjazem outros sessenta, que por sua vez subjazem doze, tudo isso graças à boa vontade dos isótopos de césio 133 em emprestarem seus ciclos radioativos ao afã obsessivo de marcar sucessões em continuidades.

Entretanto, o ponteiro do relógio só avança pois lhe conferimos esta capacidade. Do mesmo modo, os ciclos radiativos do isótopo de césio só constituem um segundo pois assim lhe conferimos esta característica. Eu diria, inclusive, que incomodamos tanto o césio lhe quebrando infindas vezes apenas para ter mais segundos que produzimos nossas continuidades a partir dessas sucessões de segundos arbitrados pela nossa necessidade de sentir o tempo passar. E o tempo, como já estabelecemos, não passa. O tempo é nossa mera imposição subjetiva sobre a realidade que vem da nossa necessidade de sentir mudança de modo a não sermos postos diante do absoluto vazio de qualquer necessidade, sentido ou motivo para que existamos. É, portanto, o tempo uma distração, um – novamente ironicamente – passatempo para nosso estado fundamentalmente sem sentido. Ao nos enganarmos volitivamente de que tudo passa, podemos seguir adiante sem olhar para a cruel realidade de que nada passa, pois, a princípio, não há nada em si para passar. Transformamos sucessões arbitradas em cima de nossos sistemas de verdade criados do absoluto caos em uma rígida organização cósmica, do micro ao macro, do molecular ao molar. E tudo isso nesse afã escapista de lidarmos com esse absoluto vazio que insistimos em fingir que não existe.

Me detive, portanto, à parte objetiva da minha refutação da passagem do tempo, mas este era apenas um exercício de possibilidades. O que me faz realmente não experimentar a passagem do tempo é justamente o encarar pleno e constante desse absoluto vazio, o qual me permite simultaneamente me livrar da passagem do tempo – doravante, essa sim, ilusão – e abraçar a suposta ilusão – essa sim, verdade – de que nada avança. Poderia ser acusado por um terceiro detrator de que esse salto não é apenas pomposo e desnecessário como uma descrença profunda e por princípio de que a vida em si não tenha sentido. A essas duas detrações eu responderia de modo resoluto que se trata exatamente disso, e diria ainda que a detração em cima desses argumentos só denota ainda mais a dificuldade das pessoas em perceber o salto absurdo que fazem entre mera sucessão não intencional e passagem contínua e progressiva do tempo rumo a alguma coisa (aqui, insira sua metafísica de preferência). As coisas não chegam nem a apenas carecer de sentido: sentido chega a ser uma característica totalmente subjetiva imprimida, por nós, pela supracitada necessidade de continuísmo. As coisas riem de nós quando nós as damos sentido, e a ciência talvez seja a mais cabal prova do absoluto estado de absurdo em que vivemos: séculos de teorias apenas continuam a falhar em modelar e delimitar o mundo em ditames específicos e rígidos o suficiente para que não sejam mais necessários ajustes ou mudanças. 

E eu, aqui, olhando para o teto do meu quarto, experimento todas essas sensações apenas ao constatar que a vida simplesmente não tem motivos para existir. Já esvaziado de quaisquer possibilidades de dotação de sentido, eu apenas olho para o teto. Muitos dizem que fazem o mesmo olhando o tempo passar, mas eu nem esse privilégio tenho mais. O tempo, aqui, para mim, já não passa mais. e sinto que a última possibilidade de sentido que eu ainda tinha para imprimir em alguma coisa da minha vida se foi. Nem os dias passam mais, dado que o segundo aqui é eterno e para mim ficou congelado nesse estático momento de total falta de motivos para viver. Levantar da cama normalmente se trata mais de um afã fisiológico do que qualquer busca por sentido, dado que o decaimento das minhas células se dá de forma sucessiva – mas não contínua – e, assim como as estrelas morrem e os átomos se quebram e partem, eu irei partir em breve. Busco inclusive diariamente as formas para que essa partição final se acelere, de modo que eu desapareça como uma supernova em algum rincão perdido do vasto e amoral universo, assim como um isótopo de césio libera os ciclos radioativos, e nesse caso eu espero que seja, assim como os demais acreditam, algo que dure apenas um segundo. Um desaparecimento rápido que talvez seja – pela terceira vez ironicamente – uma questão de tempo. Começo a me perguntar o porquê de tantas expressões envolvendo o tempo como analogia sempre servirem para denunciar sua absoluta falta de sentido. 

Talvez eu esteja preso nessa eterna ilusão-verdade porque nego a verdade-ilusão. Talvez para mim o tempo não passe porque eu perdi a vontade de acreditar que as coisas tem algum sentido próprio e que eu deveria estar lá fora, buscando-as, ainda que os sentidos que eu tenha tentado construir já se tenham esvaído em nada. Ou talvez – e apenas talvez – eu esteja aqui com esse segundo eterno, esse instante infindo, esse segundo parado, atrasando todas as outras pessoas em suas vidas. Talvez o meu segundo sem fim seja o atraso que deva ser enfim corrigido no enorme relógio cósmico que é o universo, para que as engrenagens da vida voltem a rodar sem que nada mais seja um estorvo nas delicadas engrenagens. É possível que eu seja o parafuso a mais que engasga as correntes, que faz gaguejar a máquina nesse eterno ponteiro que não avança, e seja necessário que uma atitude seja tomada para intervir esse atraso que eu causo na vida dos outros, deixando-os numa estagnação – pessoal, existencial e social – que não vislumbra finitude. Talvez – e agora não apenas, mas sim somente – eu tenha que parar de apenas cogitar cessar o fim do segundo e deixar as engrenagens do mundo rodarem novamente. Sem mais eu por aqui para deter a sucessão da vida alheia. 

E, aqui, o tempo ainda não passa.

Novembro, 3

•30/06/2016 • Deixe um comentário

“Só Deus sabe quantas vezes mergulho no sono com a esperança de nunca mais despertar; e, pela manhã, quando arregalo os olhos e torno a ver o sol, sinto-me profundamente infeliz. Oh! se eu pudesse mudar de humor, entregar-me ao tempo, a isto ou àquilo, ao insucesso de uma iniciativa qualquer, ao menos o fardo dos meus aborrecimentos não pesaria tanto. Que desgraçado que sou! Sinto-me perfeitamente o único culpado … Não, não sou culpado, mas é em mim que está a fonte de todos os meus males, como outrora a fonte de toda a minha felicidade. Não serei mais o homem que então nadava num mar de rosas, e a cada passo via surgir um paraíso, e cujo amor era capaz de abranger o mundo inteiro? Mas o coração que assim pulsava está morto, não produz mais os arrebatamentos de outros tempos; meus olhos, agora secos, não se refrescam mais de lágrimas benfazejas, e a angustia abafa os meus sentidos, contrai e enruga a minha fronte. Aumenta o meu sofrimento verificar que perdi aquilo que fazia o encanto da minha vida: sagrada e tumultuosa força graças à qual podia criar mundos e mundos em torno de mim. Essa força não mais existe! Quando contemplo, da minha janela, o sol matutino rasgar a bruma sobre a colina distante, iluminando a campina silenciosa no fundo do vale, e vejo o riacho tranqüilo correndo para mim e serpenteando entre os salgueiros desfolhados, essa natureza me parece fria e inanimada como uma estampa colorida. Todos esses encantos não, me podem fazer subir do coração ao cérebro a menor sensação de felicidade, e todo o meu ser permanece perante Deus como uma fonte estancada, como uma ânfora vazia! Quantas vezes caio de joelhos sobre a terra, implorando de Deus algumas lágrimas, como um semeador implora a chuva, se sobre a sua cabeça o céu é de bronze e, em torno, a terra estala de sede.

Mas, ai de mim, não é a impetuosidade das nossas preces que fará com que Deus conceda a chuva e o sol. E os tempos, de que sinto uma torturante saudade, só eram felizes porque pacientemente eu me confiava ao seu espírito e recebia de todo o coração, com um vivo reconhecimento, as delícias que Ele derramava sobre Mim.”

Goethe, J; Os sofrimentos do jovem Werther.

O que te assombra quatro da manhã?

•28/03/2016 • Deixe um comentário

A você, provavelmente não sei.

Mas os fantasmas de um passado inteiro espreitam além do copo  de uísque.

E eu, sinceramente, não sei se eu termino o copo e os enfrento ou rejeito mais uma dose e os temo apenas em sonhos.

Há, na realidade, uma doce ironia que apenas um Deus cruel, ou uma deidade forjada no vazio que a humanidade atribuiu causalidade, que só se pode ser verdadeiramente apreciada após um estágio profundo de compreensão do que é o sofrimento intrínseco da humanidade.

Não sei se dou Deus ou vazio.

Mas, agora, não sou nada além de uísque.

Urge.

•25/02/2015 • Deixe um comentário

Urge.

Aquilo que espreita à minha esquina, aquilo que me persegue quando não penso, aquilo que me faz fugir enquanto na frente de outros mas que me lembra que dele preciso e que sem ele não vivo. O desejo que chama profundamente porém sutilmente, como uma brasa que nunca se apaga mas que mantém emitindo calor sem parar para cada centímetro quadrado da superfície do meu corpo. Aquilo que apenas parece longe o suficiente para estar longe mas que, por um golpe de vista, esteve sempre perto o suficiente para nunca ter estado longe demais.

Queima.

Cada órgão do meu corpo parece inerte perante a ele mas ainda assim sem ele todos os órgãos parecem mortos. O combustível da minha consciência moribunda é exatamente aquilo que a mata a longo prazo, e o paradoxo fatal é a única coisa que me compele a não abrir a maçaneta e pensar por parcos segundos se eu devo ou não abraçar a noite e desbravá-la em busca do que vai me matar antes que eu possa completar quaisquer formas sencientes protoconscientes de razão. O desconhecido da escuridão noturna talvez seja a única fronteira entre mim e àquilo que eu nego mas relutantemente necessito e quero para fechar a completude.

Falta.

Falta no cérebro que se traveste em falta física, e eu não compreendo se é a falta de outros vícios afins ou se é a falta daquilo que eu ainda hesito em completar. A noite já não parece tão escura e a esquina parece apenas uma curva vazia onde nada mais pode oferecer mal senão aquilo que jaz em meu âmago já não me oferece. Talvez aquilo que eu busque mate o mal que vive em mim, ou talvez o que eu postergo não seja aquilo senão o que me mata, e já avança cada pedaço de mim de modo que eu já não consiga mais diferenciar aquilo que morre daquilo que mata.

Confunde.

Fico sem saber o que fazer. Prostro-me perante o desejo mas levanto-me perante o resquício de bom senso que ainda habita em mim. Busco alternativas, mas todas elas subjazem o mesmo algoz que segura a corda da guilhotina que mira meu pescoço pulsante. Seria apenas o desejo pelo desejo de me locomover ou haveria um desejo real de estar lá para obter o que preciso? Seguro em mãos uma alternativa próxima e cruel daquilo que eu devo buscar com esforço e que tanto quero. Dando no mesmo, por quê ainda paro perante a porta?

Erra.

Minha alma erra com aquilo, no sentido pleno da palavra, assumindo a polissemia que existe em minha língua: erro por vagar, com um rumo certo mas sem destino preciso, entre aquilo que pretendo fazer e negando o que meu corpo pede e minha mente deixa à espreita, suspeitando que meu espírito já não consiga mais viver sem aquilo que tento evitar. Erro, no sentido do engano cometido ao desviar o caminho e acabar dando de encontro com aquilo que eu temi em encontrar mas que, no encontro, não pude evitar o mais intenso sentimento de culpa por não ter feito antes. Errar é errar. Errando, eu erro.

Chega.

A princípio outra polissemia, mas o sentido de finitude dá lugar ao sentido de posteridade. Tarda, mas não falha, demora mas logo chega. Se não no dia em que urge, logo mais quando o espírito enfraquece. E de tantas alternativas para chegar, acabo escolhendo aquela que satisfaz todas as comorbidades que me habitam e abraço o fatal destino que venho adiando até então, pois já não consigo não continuar aqui sem ocasionalmente dar de encontro com o que eu deveria estar desistindo por agora.

Completa.

Perpassa cada célula do meu corpo de modo a causar um estímulo que nem a sub-rotina mais geneticamente enraizada ou o egoísmo intraespecífico mais direto consegue equiparar, e eu me vejo sentado no chão em agonia pelo fim do que eu mal consigo sustentar. Nem uma substância das mais fortes e ilícitas consegue despejar o prazer que aquilo me concede, e eu sinto como se devesse ao insano absurdo daquilo que flui e treme ao menor dos temores a minha própria alma, como se lá houvesse o que falta em mim. De fato, há mais em mim lá do que há em mim agora, e não à toa eu busco sempre aquilo que comummente me falta. Pede-se tanto de mim que me busco num recipiente de vidro barato, num receptáculo elementar qualquer ou nu envólucro forte o suficiente para deter o que mais me doi mas que, no fim, o que mais busco.

Transborda.

Meus dedos trêmulos perdem a pouca sensibilidade que lhes resta, e eu já sinto um leve atraso entre o que faço, o que percebo e o que o mundo recebe de mim, e é ai que mora o prazer. Já não sinto agora os malefícios que os outros sentem, e mesmo sabendo que o amanhã será infinitamente mais duro por conta disso, mergulho mais fundo naquilo que eu evito, pois eu sei que só o agora importa, e o amanhã não pode jamais ser pior do que normalmente já é. Não me parece nunca o suficiente, mas meu espírito por vezes anseia por uma pausa ainda que breve, para me alcançar. Despreendo-me de mim e me alcanço onde jamais estive, apenas para durar tempo o suficiente antes de precisar de mais. Nessa hora é que me percebo errado e absurdo, mas… O que não é consertado por mais um pouco do que eu já usufrui em excesso?

Doi.

Já não consigo mais aguentar, mas no entanto só consigo querer mais. Meu corpo inteiro sente o exagero mas minha alma apenas sente vontade de ser mais e mais preenchida, pois eu sei que não há nada mais em mim que mereça algum tipo de atenção. Posso morrer com isso, mas pelo menos apenas disso morrerei, e não de todo o resto que acossa minha vida e mina minha vontade subsequentemente. Morrer daquilo que me mata aos poucos ao menos é uma escolha consciente e que eu me sinto cônscio o suficiente para deleitar. Ao menos o gosto amargo que sobe da garganta à boca é mais doce que as decepções comuns que revisito dia a dia. E a dor já é quase uma massagem suave e sutil perante os arrependimentos e aquilo que eu insisto em tentar resolver, mas que não passa de um muro intransponível onde eu persistentemente dou de cara diariamente. Ao menos a dor é opcional e violenta, ao contrário da falha consistente e repetida do dia a dia, sutil, porém corroedora da minha vontade.

Acaba.

Já não consigo mais me achar em mim. Não entendo mais o que faço ou onde estou, mas me sinto arrependido por tudo o que fiz. O término é uma finitude básica e prática que acompanha o fim exato daquilo que consumi e que me consumiu, e eu já não sei mais se eu exterminei o que eu tanto necessitei ou o que necessito extermina comigo a cada dia mais. Sinto-me bem e pleno agora, apenas para perceber todos os problemas e absurdos que enfrento, e já não seu mais se vale a pena perder tempo com esse tipo de coisa. Considero toda sorte de término, mas apenas me recolho por hora, pois a consciência abalada mal consegue se encontrar. Mal cumpro tarefas básicas de minha própria vida, e esqueço do dia seguinte, onde o espelho opressor me olhará duplamente decepcionado: por todo o sofrimento de todos os outros dias e pela recaída de agora. Mas a respiração pesada e tomada de fôlego tóxico e os membros trêmulos valem a pena, e o prazer inunda as poucas terminações nervosas de meu corpo que ainda conseguem sentir alguma coisa.

Desorienta.

Me encontro novamente mal. Desa vez, o que consumi mais uma vez me consumiu de volta, e enfrento uma manhã de sol sem nem saber como ou o que eu devo começar a fazer. A luz me incomoda como se eu fosse um vampiro, e a manhã me parece uma tarefa absurda demais para cumprir. Minha boca, assim como meu espírito, estão secas, e minha alma mal sabe qual corpo habita, pois as mãos outrora trêmulas agora estão seguras o suficiente para saber que o dia anterior foi repleto de más escolhas. O interior se revira por dentro e a mente fica fora de foco, vagamente orientada para uma rotina que não tem sentido. Nunca teve, é óbvio, mas a cada redirecionar dela o uso daquilo que me desorienta apenas a torna mais sem sentido. Talvez eu incorra no mesmo erro justamente para me desorientar, pois nada disso mais faz sentido, ou talvez eu deva abandonar esse comportamento destrutivo. Mas nada dura o suficiente para valer a pena, pois a cada dia tudo piora e, nos intervalos das poucas calmarias a tempestade logo chega. E meus olhos arregalados refletem em sua superfície a única salvação que consigo ter em mente, cada vez menos efetiva e, paradoxalmente, cada vez mais necessária. E, logo, mais, não tardando mais do que o necessário…

Urge.

Você me falta e e eu te necessito.

•09/02/2015 • Deixe um comentário

Tua falta doi como uma lança que perfura o meu peito e me torna vazio.

Sem você fica difícil até mesmo compreender aquilo que eu deveria compreender como algo básico do entendimento humano. Falha no nível mais básico aquele que empreende a ideia de um  entendimento, pois, por mais simples que seja a percepção básica, que não compreenda um igual para lhe guiar não como fonte de transmissão básica de linhas gerais, de guia para reconhecimento do mundo, mas como um companheiro básico no processo mais comum e simples de contato com aquilo que nos assalta e nos toma como arrebatamento mais simples da percepção animal, o reconhecimento da alteridade ainda seria condicionado por mais fatores ulteriores. Após a evolução de espécimes como platelmintos ou bactérias, coisas mais complexas que os vírus mais simples, todos necessitam de algum nível, ainda que rudimentar – mas não menos eficaz – de comunicação para transmissão de reconhecimento de padrões básicos do mundo.

E não compreenda tal falta como mera ausência por simples necessidade.

Tua ausência fere alguns dos instintos mais básicos que um ser humano sequer vem a aprender. Mal toco nas coisas, ainda que carregue em mim um código genético com a capacidade inerente de agarrar o mais básico dos instrumentos apenas por carregar a possibilidade de uso intrínseco de ferramentas por ter um polegar opositor. Ainda que eu tenha uma capacidade rudimentar de me alimentar pelo toque simples dos lábios, esqueço-me de realizar tal tarefa básica por não ver sentido básico ou crucial nela. Mesmo que eu seja capaz de reconhecer um som ou ruído ameaçador e olhar instantaneamente para ele, não o faço, pois não há sentido em manter uma existência para a qual não há um sentido que não lhe envolva.

A necessidade que eu tenho de você transpassa a mera necessidade individual.

O indivíduo não nasce, mas se torna algo que se individua como algo separado daquilo que o cerca. Paradoxalmente, sabe-se lá se por algum mecanismo cerebral, alguma fisiologia mamífera ou mesmo por alguma construção cultural, separamo-nos uns dos outros tanto enquanto organismos -e  já aí se experimenta a política da existência humana – como enquanto indivíduos. Só experimentaríamos a coletividade por algumas ideologias duramente criticadas de continentes além-mar, e ainda assim sob forte julgo da política individual, que não me atravessa pois sua falta me faz sentir na carne que todo esse filosofismo cultural a qual pertencemos só me faz mortificar aquilo que eu mais detenho forte por ti.

Logo, aquilo que por ti cultivo não respeita barreiras fisiológicas, filosóficas ou culturais.

Há, é óbvio, uma necessidade de me remeter a um certo pensamento de romantismo que supostamente tomaria raízes em alguns pensadores medievais que supuserem uma forma de amor romântico que apenas responderia àquilo que seu coletivo de pensamento concordaria. E eu, claramente, discordo, pois há mais do que na mera necessidade de um ver-à-primeira-vista para justificar uma necessidade sincera. Inclusive, acredito eu que a própria ideia de amor já reside num domínio para além da inteligibilidade básica que um humano comum, daqueles que acumula com sua cultura mas a supera em termos de complexibilidade e maturidade o entendimento daquilo que se propõe. É o caso em que se trata de saber do que se necessita mas discernir daquilo que se detém algum grau real de necessidade e daquilo que se momentaneamente se apenas quer.

Em outras palavras: não apenas te quero como também necessito de você.

Há, em algum movimento moderno de filosofia da liberdade coletiva, uma certa crítica, – que em nada se difere daquela antiga liberdade individual amplamente criticada atualmente mas modernamente totalmente praticada por não implicar numa política real social, mas apenas numa ética que individualiza e dissolve a implicação moral (tão criticada à toa) dos relacionamentos – na ideia de que uma necessidade individual de alguém seja uma forma de implicar que àquele ao qual se torna alvo de sua necessidade seria somente seu. Tal pensamento, inclusive, tenta tornar esta ideia tão absurda que defende uma liberdade pessoal que transpassaria o indivíduo – termo que abominam mas recursivamente usam sem perceber que a mesma conotação deste termo habita outros que comumente usam – para uma liberdade para além desta “construção” social individual. Ter uma pessoa, eles dizem, seria possessividade, e tal procedimento seria abominável. Mal notam eles que tal construção individual que criticam – a necessidade – não é senão a derivação daquilo que eles mesmos buscam. 

A necessidade não clama ao outro menos do que pede daquele que a clama para si.

A necessidade não pede àquele a qual se refere o necessitar. A necessidade clama àquele que necessita. Ao que quer e ao que pede – portanto àquele que urge pela necessidade de outrem – a necessidade apenas pede aquilo que se pôs em débito no momento em que se expressou necessidade, portanto exatamente quando se implicou-se no movimento de necessitar de algo ou alguém. Desmistifica-se a ideia de que quem necessita automaticamente credita, e esta é a forma mais imbecil de encarar a necessidade. A necessidade é essencialmente débito, pois parte daquele que necessita e não daquele que credita. Quem tem crédito é aquele que já se supõe que pode obter formas de suprir o conteúdo creditado, ainda que se pague o conteúdo creditado posteriormente ao crédito de conteúdo em si. Já aquele que necessita automaticamente debita, em si, pelo outro, aquilo que se necessita, vivendo em eterna dívida com o conteúdo de sua necessidade. 

Necessitar é debitar, em si, pelo outro. Creditar é depender, do outro, descontando em si.

Me necessito de você, e é nesse ponto que não compreendem minha devoção a ti. Entendem como eu se eu creditasse a você algo que me falta, quando na verdade debito em mim aquilo que me falta para chegar até você, inteiro e pleno. Necessitar de você é debitar de mim o que me falta para ser completo para você, ainda que eu precise perder algo em mim – bom ou ruim, completo ou incompleto – para ser algo para ti. Creditar-me – logo, depender de você – seria equivalente a pôr-me numa eterna condição de suposta completude para enfim alçar a capacidade de te você ao meu lado, ou ainda de te obter, quando no fim estaria só, sem mim e, portanto, sem ser capaz de estar contigo.

E é aqui que todos os outros falham em compreender a necessidade.

Não se trata de uma completude fisiológica ou biológica, pois me sou completo em mim (e acrescentaria também biologicamente completo por ti, mas seria duramente criticado por tal posição “dependente”). Não se trata de uma completude específica – e aqui num sentido darwiniano além dos idiotas proto-politizados em que tudo enxergam intrigas políticas – , mas uma completude que eu só alcanço, paradoxalmente, em necessitar. Não se trata de um amor romântico ou mesmo uma necessidade de exercer sobre ti uma necessidade de controle – à qual exerço desprezo infinito pois sei que minha necessidade de você não implicaria no mais vago controle. Não se trata de esperar algo de você para obter você, mas sim de esperar algo em mim que eu já tenha – ou desenvolva – para enfim poder esperar que você possa ter em mim algo que tenha. Minha necessidade de você fala mais sobre mim do que de você.

Tua falta apenas me completa. Necessito de você apenas para completar a mim mesmo.

Todo homem é uma ilha.

•09/02/2015 • Deixe um comentário

Nenhum homem é uma ilha, disse uma vez um poeta. Mas todo homem só é uma ilha.

Não há maneiras de mensurar quantas formas diferentes alguém pode empreender para apenas discordar dessa afirmativa errônea em tantos aspectos. Caro poeta, todo homem não é, senão, uma Ilha. Mais ainda, diria que todo homem, mulher e ser vivo não é nada além de um ponto cujas dimensões são desprezíveis, tais quais as dos problemas de física teórica que consideram pontos como entes deste modo: com dimensões e demais características desprezíveis. Apenas pontos. Unitários e apenas isto.

E eu estendo tal característica a todo homem, sem exceção.

Note, caro poeta, que o erro básico de sua presunção de coletividade implícita em cada ente considerado humano parte do pressuposto que haveria, de algum modo, alguma ligação intrínseca entre toda a humanidade, algo que perpassasse barreiras para além dos indivíduos ou ainda dos coletivos individuais, estas torpes conjunções de heterônimos parcamente mantidas unidas por aspirações fúteis de identidade ou mesmo de aspirações comuns. Não, meu caro, não há nada intrinsecamente ligando os humanos além das vagas ligações cromossômicas que, por acaso, nos colocam sob o julgo da mesma espécie, da mesma família, do mesmo filo e do mesmo reino. Nada intrínseco haveria de nos unir além daquilo que, de intrínseco, dó detém a aleatoriedade.

Os homens não são mais do que animais bípedes com presunções de coletividade.

Veja, meu caro poeta, que a falácia da unidade da humanidade – cuja palavra já ensaia um certo nojo pela sua presunção de humanismo – reside tão somente na ideia da capacidade do ser humano de ser capaz de estender a mão a um suposto igual sem dele não estar, de antemão, requerendo algo que não lhe seja, de algum modo, retroativamente benéfico. Em outras palavras, aquilo que talvez nos unisse – o altruísmo tão cantado e disseminado entre os filósofos e demais adoradores de ideologias holísticas – não passa de uma ferramenta biológica para a manutenção do indivíduo como organismo vivo. E mesmo quando esse indivíduo age querendo manter seus iguais, não o faz para manter senão aquilo que também o faz vivo: seu próprio código genético, detentor de tudo aquilo que nos faz o que somos.

Tal presunção de coletividade não passa de uma grande fantasia coletiva.

Entenda, poeta, que sua capacidade de enxergar a coletividade aleatória e apenas por mera força de proximidade foi até uma boa capacidade de tentar entender a humanidade como algo a mais do que uma mera coleção de organismos. Tal empreendimento realmente contribuiu para que os demais enxergassem a si mesmos como parte de um todo maior. Mas no fim o que ainda implica no erro é acreditar que todo todo necessariamente implicaria num todo. Em outras palavras, nem toda soma implica numa coletividade teleologicamente arranjada, numa capacidade de todos os demais estarem conectados com algum tipo de intenção supraindiviudual e subconscientemente coletiva. O todo arranjado é uma farsa e a ideia da coletividade não é, senão, um arranjo meramente aleatório, que leis biológicas são plenamente capazes de explicar por meio de necessidades de multiplicação.

Tal farsa de coletividade, por sua vez, mascara algo mais profundo: a solidão.

A ideia de uma ilha, que você, poeta, negou como parte de sua presunção básica de uma humanidade vagamente unida, não é nada mais senão exatamente a verdade que você veio a negar. Inclusive nota-se como a verdade que você negou é exatamente aquilo que você usou para alicerçar uma farsa muito bem amparada em boas intenções, mas carente de sentido geral e lógica de nível rudimentar. A ilha é não só aquilo que somos como também aquilo que resta e aquilo que pode ser verdade, e apenas aquilo que pode ser verossímil. Todo resto, perante o crivo de uma mente devidamente arrazoada não passa de especulação humanista rasa e calcada em ideologias e filosofias vãs. Todo homem não só é uma ilha como não pode ser mais do que uma ilha. Interagimos, mas, no fundo, estamos sós.

A solidão é, portanto, a marca primeira e última do homem, e detém sua verdade.

Todo homem é uma ilha pequena, diminuta, e que, ainda que detenha algum vasto território seu, é totalmente suprimida por um vasto oceano, que não mede esforços em oprimir cada metro quadrado de segredos insulares com quilômetros quadrados de vastidão estéril de águas vazias e misteriosas. O mundo é um lugar cruel que não liga se você é algo a ser descoberto ou explorado, se você detém segredos ou mesmo aspirações nobres: você é apenas mais uma ilha no meio de um vasto corpo de água que lhe suprime em cada centímetro de sua existência, separando-o ontologicamente de tudo aquilo que poderia lhe ser um igual.

Todo homem é uma ilha, eu digo, e assertivas em contrário são, portanto, falsas.

Não há como não ser uma ilha num mundo tão cruel e inóspito. Ainda que existam ilhas inteiras lá fora, toda ilha ainda é incomunicável por um mar infinito que as separa. E mesmo que elas se encontrem por ocasionais aleatoriedades – acidentes geológicos, proximidade real e inesperada, busca ativa por outras ilhas ou mesmo um divino processo de terraformagem – no fundo somos intrinsecamente divididos uns dos outros. Na verdade, somos ativamente divididos uns dos outros: separamo-nos pois não só é nossa condição, como nosso fardo.

Todo homem é uma ilha. Todo homem está só e se findará só.