Você me falta e e eu te necessito.

Tua falta doi como uma lança que perfura o meu peito e me torna vazio.

Sem você fica difícil até mesmo compreender aquilo que eu deveria compreender como algo básico do entendimento humano. Falha no nível mais básico aquele que empreende a ideia de um  entendimento, pois, por mais simples que seja a percepção básica, que não compreenda um igual para lhe guiar não como fonte de transmissão básica de linhas gerais, de guia para reconhecimento do mundo, mas como um companheiro básico no processo mais comum e simples de contato com aquilo que nos assalta e nos toma como arrebatamento mais simples da percepção animal, o reconhecimento da alteridade ainda seria condicionado por mais fatores ulteriores. Após a evolução de espécimes como platelmintos ou bactérias, coisas mais complexas que os vírus mais simples, todos necessitam de algum nível, ainda que rudimentar – mas não menos eficaz – de comunicação para transmissão de reconhecimento de padrões básicos do mundo.

E não compreenda tal falta como mera ausência por simples necessidade.

Tua ausência fere alguns dos instintos mais básicos que um ser humano sequer vem a aprender. Mal toco nas coisas, ainda que carregue em mim um código genético com a capacidade inerente de agarrar o mais básico dos instrumentos apenas por carregar a possibilidade de uso intrínseco de ferramentas por ter um polegar opositor. Ainda que eu tenha uma capacidade rudimentar de me alimentar pelo toque simples dos lábios, esqueço-me de realizar tal tarefa básica por não ver sentido básico ou crucial nela. Mesmo que eu seja capaz de reconhecer um som ou ruído ameaçador e olhar instantaneamente para ele, não o faço, pois não há sentido em manter uma existência para a qual não há um sentido que não lhe envolva.

A necessidade que eu tenho de você transpassa a mera necessidade individual.

O indivíduo não nasce, mas se torna algo que se individua como algo separado daquilo que o cerca. Paradoxalmente, sabe-se lá se por algum mecanismo cerebral, alguma fisiologia mamífera ou mesmo por alguma construção cultural, separamo-nos uns dos outros tanto enquanto organismos -e  já aí se experimenta a política da existência humana – como enquanto indivíduos. Só experimentaríamos a coletividade por algumas ideologias duramente criticadas de continentes além-mar, e ainda assim sob forte julgo da política individual, que não me atravessa pois sua falta me faz sentir na carne que todo esse filosofismo cultural a qual pertencemos só me faz mortificar aquilo que eu mais detenho forte por ti.

Logo, aquilo que por ti cultivo não respeita barreiras fisiológicas, filosóficas ou culturais.

Há, é óbvio, uma necessidade de me remeter a um certo pensamento de romantismo que supostamente tomaria raízes em alguns pensadores medievais que supuserem uma forma de amor romântico que apenas responderia àquilo que seu coletivo de pensamento concordaria. E eu, claramente, discordo, pois há mais do que na mera necessidade de um ver-à-primeira-vista para justificar uma necessidade sincera. Inclusive, acredito eu que a própria ideia de amor já reside num domínio para além da inteligibilidade básica que um humano comum, daqueles que acumula com sua cultura mas a supera em termos de complexibilidade e maturidade o entendimento daquilo que se propõe. É o caso em que se trata de saber do que se necessita mas discernir daquilo que se detém algum grau real de necessidade e daquilo que se momentaneamente se apenas quer.

Em outras palavras: não apenas te quero como também necessito de você.

Há, em algum movimento moderno de filosofia da liberdade coletiva, uma certa crítica, – que em nada se difere daquela antiga liberdade individual amplamente criticada atualmente mas modernamente totalmente praticada por não implicar numa política real social, mas apenas numa ética que individualiza e dissolve a implicação moral (tão criticada à toa) dos relacionamentos – na ideia de que uma necessidade individual de alguém seja uma forma de implicar que àquele ao qual se torna alvo de sua necessidade seria somente seu. Tal pensamento, inclusive, tenta tornar esta ideia tão absurda que defende uma liberdade pessoal que transpassaria o indivíduo – termo que abominam mas recursivamente usam sem perceber que a mesma conotação deste termo habita outros que comumente usam – para uma liberdade para além desta “construção” social individual. Ter uma pessoa, eles dizem, seria possessividade, e tal procedimento seria abominável. Mal notam eles que tal construção individual que criticam – a necessidade – não é senão a derivação daquilo que eles mesmos buscam. 

A necessidade não clama ao outro menos do que pede daquele que a clama para si.

A necessidade não pede àquele a qual se refere o necessitar. A necessidade clama àquele que necessita. Ao que quer e ao que pede – portanto àquele que urge pela necessidade de outrem – a necessidade apenas pede aquilo que se pôs em débito no momento em que se expressou necessidade, portanto exatamente quando se implicou-se no movimento de necessitar de algo ou alguém. Desmistifica-se a ideia de que quem necessita automaticamente credita, e esta é a forma mais imbecil de encarar a necessidade. A necessidade é essencialmente débito, pois parte daquele que necessita e não daquele que credita. Quem tem crédito é aquele que já se supõe que pode obter formas de suprir o conteúdo creditado, ainda que se pague o conteúdo creditado posteriormente ao crédito de conteúdo em si. Já aquele que necessita automaticamente debita, em si, pelo outro, aquilo que se necessita, vivendo em eterna dívida com o conteúdo de sua necessidade. 

Necessitar é debitar, em si, pelo outro. Creditar é depender, do outro, descontando em si.

Me necessito de você, e é nesse ponto que não compreendem minha devoção a ti. Entendem como eu se eu creditasse a você algo que me falta, quando na verdade debito em mim aquilo que me falta para chegar até você, inteiro e pleno. Necessitar de você é debitar de mim o que me falta para ser completo para você, ainda que eu precise perder algo em mim – bom ou ruim, completo ou incompleto – para ser algo para ti. Creditar-me – logo, depender de você – seria equivalente a pôr-me numa eterna condição de suposta completude para enfim alçar a capacidade de te você ao meu lado, ou ainda de te obter, quando no fim estaria só, sem mim e, portanto, sem ser capaz de estar contigo.

E é aqui que todos os outros falham em compreender a necessidade.

Não se trata de uma completude fisiológica ou biológica, pois me sou completo em mim (e acrescentaria também biologicamente completo por ti, mas seria duramente criticado por tal posição “dependente”). Não se trata de uma completude específica – e aqui num sentido darwiniano além dos idiotas proto-politizados em que tudo enxergam intrigas políticas – , mas uma completude que eu só alcanço, paradoxalmente, em necessitar. Não se trata de um amor romântico ou mesmo uma necessidade de exercer sobre ti uma necessidade de controle – à qual exerço desprezo infinito pois sei que minha necessidade de você não implicaria no mais vago controle. Não se trata de esperar algo de você para obter você, mas sim de esperar algo em mim que eu já tenha – ou desenvolva – para enfim poder esperar que você possa ter em mim algo que tenha. Minha necessidade de você fala mais sobre mim do que de você.

Tua falta apenas me completa. Necessito de você apenas para completar a mim mesmo.

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~ por Autor em 09/02/2015.

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