Todo homem é uma ilha.

Nenhum homem é uma ilha, disse uma vez um poeta. Mas todo homem só é uma ilha.

Não há maneiras de mensurar quantas formas diferentes alguém pode empreender para apenas discordar dessa afirmativa errônea em tantos aspectos. Caro poeta, todo homem não é, senão, uma Ilha. Mais ainda, diria que todo homem, mulher e ser vivo não é nada além de um ponto cujas dimensões são desprezíveis, tais quais as dos problemas de física teórica que consideram pontos como entes deste modo: com dimensões e demais características desprezíveis. Apenas pontos. Unitários e apenas isto.

E eu estendo tal característica a todo homem, sem exceção.

Note, caro poeta, que o erro básico de sua presunção de coletividade implícita em cada ente considerado humano parte do pressuposto que haveria, de algum modo, alguma ligação intrínseca entre toda a humanidade, algo que perpassasse barreiras para além dos indivíduos ou ainda dos coletivos individuais, estas torpes conjunções de heterônimos parcamente mantidas unidas por aspirações fúteis de identidade ou mesmo de aspirações comuns. Não, meu caro, não há nada intrinsecamente ligando os humanos além das vagas ligações cromossômicas que, por acaso, nos colocam sob o julgo da mesma espécie, da mesma família, do mesmo filo e do mesmo reino. Nada intrínseco haveria de nos unir além daquilo que, de intrínseco, dó detém a aleatoriedade.

Os homens não são mais do que animais bípedes com presunções de coletividade.

Veja, meu caro poeta, que a falácia da unidade da humanidade – cuja palavra já ensaia um certo nojo pela sua presunção de humanismo – reside tão somente na ideia da capacidade do ser humano de ser capaz de estender a mão a um suposto igual sem dele não estar, de antemão, requerendo algo que não lhe seja, de algum modo, retroativamente benéfico. Em outras palavras, aquilo que talvez nos unisse – o altruísmo tão cantado e disseminado entre os filósofos e demais adoradores de ideologias holísticas – não passa de uma ferramenta biológica para a manutenção do indivíduo como organismo vivo. E mesmo quando esse indivíduo age querendo manter seus iguais, não o faz para manter senão aquilo que também o faz vivo: seu próprio código genético, detentor de tudo aquilo que nos faz o que somos.

Tal presunção de coletividade não passa de uma grande fantasia coletiva.

Entenda, poeta, que sua capacidade de enxergar a coletividade aleatória e apenas por mera força de proximidade foi até uma boa capacidade de tentar entender a humanidade como algo a mais do que uma mera coleção de organismos. Tal empreendimento realmente contribuiu para que os demais enxergassem a si mesmos como parte de um todo maior. Mas no fim o que ainda implica no erro é acreditar que todo todo necessariamente implicaria num todo. Em outras palavras, nem toda soma implica numa coletividade teleologicamente arranjada, numa capacidade de todos os demais estarem conectados com algum tipo de intenção supraindiviudual e subconscientemente coletiva. O todo arranjado é uma farsa e a ideia da coletividade não é, senão, um arranjo meramente aleatório, que leis biológicas são plenamente capazes de explicar por meio de necessidades de multiplicação.

Tal farsa de coletividade, por sua vez, mascara algo mais profundo: a solidão.

A ideia de uma ilha, que você, poeta, negou como parte de sua presunção básica de uma humanidade vagamente unida, não é nada mais senão exatamente a verdade que você veio a negar. Inclusive nota-se como a verdade que você negou é exatamente aquilo que você usou para alicerçar uma farsa muito bem amparada em boas intenções, mas carente de sentido geral e lógica de nível rudimentar. A ilha é não só aquilo que somos como também aquilo que resta e aquilo que pode ser verdade, e apenas aquilo que pode ser verossímil. Todo resto, perante o crivo de uma mente devidamente arrazoada não passa de especulação humanista rasa e calcada em ideologias e filosofias vãs. Todo homem não só é uma ilha como não pode ser mais do que uma ilha. Interagimos, mas, no fundo, estamos sós.

A solidão é, portanto, a marca primeira e última do homem, e detém sua verdade.

Todo homem é uma ilha pequena, diminuta, e que, ainda que detenha algum vasto território seu, é totalmente suprimida por um vasto oceano, que não mede esforços em oprimir cada metro quadrado de segredos insulares com quilômetros quadrados de vastidão estéril de águas vazias e misteriosas. O mundo é um lugar cruel que não liga se você é algo a ser descoberto ou explorado, se você detém segredos ou mesmo aspirações nobres: você é apenas mais uma ilha no meio de um vasto corpo de água que lhe suprime em cada centímetro de sua existência, separando-o ontologicamente de tudo aquilo que poderia lhe ser um igual.

Todo homem é uma ilha, eu digo, e assertivas em contrário são, portanto, falsas.

Não há como não ser uma ilha num mundo tão cruel e inóspito. Ainda que existam ilhas inteiras lá fora, toda ilha ainda é incomunicável por um mar infinito que as separa. E mesmo que elas se encontrem por ocasionais aleatoriedades – acidentes geológicos, proximidade real e inesperada, busca ativa por outras ilhas ou mesmo um divino processo de terraformagem – no fundo somos intrinsecamente divididos uns dos outros. Na verdade, somos ativamente divididos uns dos outros: separamo-nos pois não só é nossa condição, como nosso fardo.

Todo homem é uma ilha. Todo homem está só e se findará só.

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~ por Autor em 09/02/2015.

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