Urge.

Urge.

Aquilo que espreita à minha esquina, aquilo que me persegue quando não penso, aquilo que me faz fugir enquanto na frente de outros mas que me lembra que dele preciso e que sem ele não vivo. O desejo que chama profundamente porém sutilmente, como uma brasa que nunca se apaga mas que mantém emitindo calor sem parar para cada centímetro quadrado da superfície do meu corpo. Aquilo que apenas parece longe o suficiente para estar longe mas que, por um golpe de vista, esteve sempre perto o suficiente para nunca ter estado longe demais.

Queima.

Cada órgão do meu corpo parece inerte perante a ele mas ainda assim sem ele todos os órgãos parecem mortos. O combustível da minha consciência moribunda é exatamente aquilo que a mata a longo prazo, e o paradoxo fatal é a única coisa que me compele a não abrir a maçaneta e pensar por parcos segundos se eu devo ou não abraçar a noite e desbravá-la em busca do que vai me matar antes que eu possa completar quaisquer formas sencientes protoconscientes de razão. O desconhecido da escuridão noturna talvez seja a única fronteira entre mim e àquilo que eu nego mas relutantemente necessito e quero para fechar a completude.

Falta.

Falta no cérebro que se traveste em falta física, e eu não compreendo se é a falta de outros vícios afins ou se é a falta daquilo que eu ainda hesito em completar. A noite já não parece tão escura e a esquina parece apenas uma curva vazia onde nada mais pode oferecer mal senão aquilo que jaz em meu âmago já não me oferece. Talvez aquilo que eu busque mate o mal que vive em mim, ou talvez o que eu postergo não seja aquilo senão o que me mata, e já avança cada pedaço de mim de modo que eu já não consiga mais diferenciar aquilo que morre daquilo que mata.

Confunde.

Fico sem saber o que fazer. Prostro-me perante o desejo mas levanto-me perante o resquício de bom senso que ainda habita em mim. Busco alternativas, mas todas elas subjazem o mesmo algoz que segura a corda da guilhotina que mira meu pescoço pulsante. Seria apenas o desejo pelo desejo de me locomover ou haveria um desejo real de estar lá para obter o que preciso? Seguro em mãos uma alternativa próxima e cruel daquilo que eu devo buscar com esforço e que tanto quero. Dando no mesmo, por quê ainda paro perante a porta?

Erra.

Minha alma erra com aquilo, no sentido pleno da palavra, assumindo a polissemia que existe em minha língua: erro por vagar, com um rumo certo mas sem destino preciso, entre aquilo que pretendo fazer e negando o que meu corpo pede e minha mente deixa à espreita, suspeitando que meu espírito já não consiga mais viver sem aquilo que tento evitar. Erro, no sentido do engano cometido ao desviar o caminho e acabar dando de encontro com aquilo que eu temi em encontrar mas que, no encontro, não pude evitar o mais intenso sentimento de culpa por não ter feito antes. Errar é errar. Errando, eu erro.

Chega.

A princípio outra polissemia, mas o sentido de finitude dá lugar ao sentido de posteridade. Tarda, mas não falha, demora mas logo chega. Se não no dia em que urge, logo mais quando o espírito enfraquece. E de tantas alternativas para chegar, acabo escolhendo aquela que satisfaz todas as comorbidades que me habitam e abraço o fatal destino que venho adiando até então, pois já não consigo não continuar aqui sem ocasionalmente dar de encontro com o que eu deveria estar desistindo por agora.

Completa.

Perpassa cada célula do meu corpo de modo a causar um estímulo que nem a sub-rotina mais geneticamente enraizada ou o egoísmo intraespecífico mais direto consegue equiparar, e eu me vejo sentado no chão em agonia pelo fim do que eu mal consigo sustentar. Nem uma substância das mais fortes e ilícitas consegue despejar o prazer que aquilo me concede, e eu sinto como se devesse ao insano absurdo daquilo que flui e treme ao menor dos temores a minha própria alma, como se lá houvesse o que falta em mim. De fato, há mais em mim lá do que há em mim agora, e não à toa eu busco sempre aquilo que comummente me falta. Pede-se tanto de mim que me busco num recipiente de vidro barato, num receptáculo elementar qualquer ou nu envólucro forte o suficiente para deter o que mais me doi mas que, no fim, o que mais busco.

Transborda.

Meus dedos trêmulos perdem a pouca sensibilidade que lhes resta, e eu já sinto um leve atraso entre o que faço, o que percebo e o que o mundo recebe de mim, e é ai que mora o prazer. Já não sinto agora os malefícios que os outros sentem, e mesmo sabendo que o amanhã será infinitamente mais duro por conta disso, mergulho mais fundo naquilo que eu evito, pois eu sei que só o agora importa, e o amanhã não pode jamais ser pior do que normalmente já é. Não me parece nunca o suficiente, mas meu espírito por vezes anseia por uma pausa ainda que breve, para me alcançar. Despreendo-me de mim e me alcanço onde jamais estive, apenas para durar tempo o suficiente antes de precisar de mais. Nessa hora é que me percebo errado e absurdo, mas… O que não é consertado por mais um pouco do que eu já usufrui em excesso?

Doi.

Já não consigo mais aguentar, mas no entanto só consigo querer mais. Meu corpo inteiro sente o exagero mas minha alma apenas sente vontade de ser mais e mais preenchida, pois eu sei que não há nada mais em mim que mereça algum tipo de atenção. Posso morrer com isso, mas pelo menos apenas disso morrerei, e não de todo o resto que acossa minha vida e mina minha vontade subsequentemente. Morrer daquilo que me mata aos poucos ao menos é uma escolha consciente e que eu me sinto cônscio o suficiente para deleitar. Ao menos o gosto amargo que sobe da garganta à boca é mais doce que as decepções comuns que revisito dia a dia. E a dor já é quase uma massagem suave e sutil perante os arrependimentos e aquilo que eu insisto em tentar resolver, mas que não passa de um muro intransponível onde eu persistentemente dou de cara diariamente. Ao menos a dor é opcional e violenta, ao contrário da falha consistente e repetida do dia a dia, sutil, porém corroedora da minha vontade.

Acaba.

Já não consigo mais me achar em mim. Não entendo mais o que faço ou onde estou, mas me sinto arrependido por tudo o que fiz. O término é uma finitude básica e prática que acompanha o fim exato daquilo que consumi e que me consumiu, e eu já não sei mais se eu exterminei o que eu tanto necessitei ou o que necessito extermina comigo a cada dia mais. Sinto-me bem e pleno agora, apenas para perceber todos os problemas e absurdos que enfrento, e já não seu mais se vale a pena perder tempo com esse tipo de coisa. Considero toda sorte de término, mas apenas me recolho por hora, pois a consciência abalada mal consegue se encontrar. Mal cumpro tarefas básicas de minha própria vida, e esqueço do dia seguinte, onde o espelho opressor me olhará duplamente decepcionado: por todo o sofrimento de todos os outros dias e pela recaída de agora. Mas a respiração pesada e tomada de fôlego tóxico e os membros trêmulos valem a pena, e o prazer inunda as poucas terminações nervosas de meu corpo que ainda conseguem sentir alguma coisa.

Desorienta.

Me encontro novamente mal. Desa vez, o que consumi mais uma vez me consumiu de volta, e enfrento uma manhã de sol sem nem saber como ou o que eu devo começar a fazer. A luz me incomoda como se eu fosse um vampiro, e a manhã me parece uma tarefa absurda demais para cumprir. Minha boca, assim como meu espírito, estão secas, e minha alma mal sabe qual corpo habita, pois as mãos outrora trêmulas agora estão seguras o suficiente para saber que o dia anterior foi repleto de más escolhas. O interior se revira por dentro e a mente fica fora de foco, vagamente orientada para uma rotina que não tem sentido. Nunca teve, é óbvio, mas a cada redirecionar dela o uso daquilo que me desorienta apenas a torna mais sem sentido. Talvez eu incorra no mesmo erro justamente para me desorientar, pois nada disso mais faz sentido, ou talvez eu deva abandonar esse comportamento destrutivo. Mas nada dura o suficiente para valer a pena, pois a cada dia tudo piora e, nos intervalos das poucas calmarias a tempestade logo chega. E meus olhos arregalados refletem em sua superfície a única salvação que consigo ter em mente, cada vez menos efetiva e, paradoxalmente, cada vez mais necessária. E, logo, mais, não tardando mais do que o necessário…

Urge.

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~ por Autor em 25/02/2015.

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