O tempo não passa

O tempo não passa.

Meu olhar se perde na imensidão diminuta de um teto branco cor de gelo, cuja cor  fora fruto da escolha de um parente que já não está mais aqui. A camada de tinta velha e repleta de manchas é adornada por preguiçosas teias de aranha, que caem largadas e puídas pela ação do vento e do fato que, muito provavelmente, as aranhas que as construíram já morreram. O ciclo de vida e morte delas, caçando os insetos que invadem meu quarto, é provavelmente rápido, e é perfeitamente capaz que algumas daquelas teias tenham sido feitas ainda quando eu nem era nascido, pois as manchas de descuido e as portas rangendo nos armários abarrotados de velharias se acumularam enquanto eu crescia. O mais plausível, entretanto, é que todas as teias que eu consistentemente vejo penduradas no teto se degeneram e são reconstruídas por novas gerações de aranhas, netas e bisnetas das muitas que contribuem para que essa paisagem estática me dê a noção de que, aqui, deitado e olhando para o teto sujo, manchado e empoeirado do meu quarto, o tempo não passa. 

Haveria de se perguntar os motivos da minha ilusão de que o tempo não passa, dado que a física mais moderna é inexoravelmente cada dia mais precisa em desvendar os mistérios do mundo, e a precisão de um segundo é atrelada não mais à sensação pessoal ou a um arbítrio algo cultural ou subjetivo, mas sim ao desencadear de diversas liberações radioativas de átomos do isótopo 133 do césio. Outrora já fui impressionado pelo modo como essa precisão é não ontológica e ao mesmo tempo uma maravilha da ciência moderna: desatrelamos a realidade de nossas subdeterminações pessoais e tornamos o mundo um lugar que funciona – ironicamente – como um relógio, onde cada engrenagem se liga e depende de uma peça menor, interligada por sua vez a outras engrenagens e mecanismos. Entretanto, hoje observo esse avanço com total desprezo, dado que, nada me convenceria de que o salto entre a sensação pessoal jamais foi dado, e que, aqui, no meu quarto, o tempo não passa. O universo inteiro não se move, não se dilata e nem se contrai, mas permanece nesse perene estado de permanência, e todo o sentido – seja o vetorial ou o existencial – desvanece nesse eterno segundo que cisma em não passar e faz do isótopo fiel da balança dos físicos um escárnio constante. O tempo, aqui, não passa e nunca passou.

Sobraria a alguém de bom senso perguntar o motivo de minha necessidade de fundamentar tal ilusão do segundo eterno através da destruição de um sistema tão primoroso e rígido de verdades. E a esse ser de pleno bom senso e mais profunda  hipocrisia moral, eu responderia: para mim, a vida já não faz mais sentido. Antes que eu me enverede pelo sentido existencial, me deterei ainda na brevidade técnico-prática do relógio, pois a analogia inicia nela – o tempo não passa – e passa para a vida em si – o universo como o relógio dos físicos – de modo a findar uma questão simples. Qualquer realista empedernido, do alto do seu pedestal moral disfarçado de saber estabelecido, me diria que o universo avança e que o tempo passa independente de nossa vontade, o que me daria exemplos claros da progressão das coisas. Até mesmo o ciclo infindo de aracnídeos sucessivos enfeitando o teto imutável do meu quarto com sujeira, insetos mortos e teias serviria como exemplo. Entretanto, eu objetaria da forma mais simples: uma sucessão de eventos não constitui, necessariamente, uma continuidade, pois à continuidade é conferida a qualidade essencial de ser ontologicamente progressiva em algum grau, seja de acúmulo ou de avanço, e nem as aranhas tecem teias para chegar a algum grau maior, tampouco o universo sucede em eventos diversos – das estrelas mais flamejantes as subpartículas mais ínfimas, não há progressão. Em outras palavras, o ponteiro do relógio não avança, ele apenas sucede sessenta estados distintos que subjazem outros sessenta, que por sua vez subjazem doze, tudo isso graças à boa vontade dos isótopos de césio 133 em emprestarem seus ciclos radioativos ao afã obsessivo de marcar sucessões em continuidades.

Entretanto, o ponteiro do relógio só avança pois lhe conferimos esta capacidade. Do mesmo modo, os ciclos radiativos do isótopo de césio só constituem um segundo pois assim lhe conferimos esta característica. Eu diria, inclusive, que incomodamos tanto o césio lhe quebrando infindas vezes apenas para ter mais segundos que produzimos nossas continuidades a partir dessas sucessões de segundos arbitrados pela nossa necessidade de sentir o tempo passar. E o tempo, como já estabelecemos, não passa. O tempo é nossa mera imposição subjetiva sobre a realidade que vem da nossa necessidade de sentir mudança de modo a não sermos postos diante do absoluto vazio de qualquer necessidade, sentido ou motivo para que existamos. É, portanto, o tempo uma distração, um – novamente ironicamente – passatempo para nosso estado fundamentalmente sem sentido. Ao nos enganarmos volitivamente de que tudo passa, podemos seguir adiante sem olhar para a cruel realidade de que nada passa, pois, a princípio, não há nada em si para passar. Transformamos sucessões arbitradas em cima de nossos sistemas de verdade criados do absoluto caos em uma rígida organização cósmica, do micro ao macro, do molecular ao molar. E tudo isso nesse afã escapista de lidarmos com esse absoluto vazio que insistimos em fingir que não existe.

Me detive, portanto, à parte objetiva da minha refutação da passagem do tempo, mas este era apenas um exercício de possibilidades. O que me faz realmente não experimentar a passagem do tempo é justamente o encarar pleno e constante desse absoluto vazio, o qual me permite simultaneamente me livrar da passagem do tempo – doravante, essa sim, ilusão – e abraçar a suposta ilusão – essa sim, verdade – de que nada avança. Poderia ser acusado por um terceiro detrator de que esse salto não é apenas pomposo e desnecessário como uma descrença profunda e por princípio de que a vida em si não tenha sentido. A essas duas detrações eu responderia de modo resoluto que se trata exatamente disso, e diria ainda que a detração em cima desses argumentos só denota ainda mais a dificuldade das pessoas em perceber o salto absurdo que fazem entre mera sucessão não intencional e passagem contínua e progressiva do tempo rumo a alguma coisa (aqui, insira sua metafísica de preferência). As coisas não chegam nem a apenas carecer de sentido: sentido chega a ser uma característica totalmente subjetiva imprimida, por nós, pela supracitada necessidade de continuísmo. As coisas riem de nós quando nós as damos sentido, e a ciência talvez seja a mais cabal prova do absoluto estado de absurdo em que vivemos: séculos de teorias apenas continuam a falhar em modelar e delimitar o mundo em ditames específicos e rígidos o suficiente para que não sejam mais necessários ajustes ou mudanças. 

E eu, aqui, olhando para o teto do meu quarto, experimento todas essas sensações apenas ao constatar que a vida simplesmente não tem motivos para existir. Já esvaziado de quaisquer possibilidades de dotação de sentido, eu apenas olho para o teto. Muitos dizem que fazem o mesmo olhando o tempo passar, mas eu nem esse privilégio tenho mais. O tempo, aqui, para mim, já não passa mais. e sinto que a última possibilidade de sentido que eu ainda tinha para imprimir em alguma coisa da minha vida se foi. Nem os dias passam mais, dado que o segundo aqui é eterno e para mim ficou congelado nesse estático momento de total falta de motivos para viver. Levantar da cama normalmente se trata mais de um afã fisiológico do que qualquer busca por sentido, dado que o decaimento das minhas células se dá de forma sucessiva – mas não contínua – e, assim como as estrelas morrem e os átomos se quebram e partem, eu irei partir em breve. Busco inclusive diariamente as formas para que essa partição final se acelere, de modo que eu desapareça como uma supernova em algum rincão perdido do vasto e amoral universo, assim como um isótopo de césio libera os ciclos radioativos, e nesse caso eu espero que seja, assim como os demais acreditam, algo que dure apenas um segundo. Um desaparecimento rápido que talvez seja – pela terceira vez ironicamente – uma questão de tempo. Começo a me perguntar o porquê de tantas expressões envolvendo o tempo como analogia sempre servirem para denunciar sua absoluta falta de sentido. 

Talvez eu esteja preso nessa eterna ilusão-verdade porque nego a verdade-ilusão. Talvez para mim o tempo não passe porque eu perdi a vontade de acreditar que as coisas tem algum sentido próprio e que eu deveria estar lá fora, buscando-as, ainda que os sentidos que eu tenha tentado construir já se tenham esvaído em nada. Ou talvez – e apenas talvez – eu esteja aqui com esse segundo eterno, esse instante infindo, esse segundo parado, atrasando todas as outras pessoas em suas vidas. Talvez o meu segundo sem fim seja o atraso que deva ser enfim corrigido no enorme relógio cósmico que é o universo, para que as engrenagens da vida voltem a rodar sem que nada mais seja um estorvo nas delicadas engrenagens. É possível que eu seja o parafuso a mais que engasga as correntes, que faz gaguejar a máquina nesse eterno ponteiro que não avança, e seja necessário que uma atitude seja tomada para intervir esse atraso que eu causo na vida dos outros, deixando-os numa estagnação – pessoal, existencial e social – que não vislumbra finitude. Talvez – e agora não apenas, mas sim somente – eu tenha que parar de apenas cogitar cessar o fim do segundo e deixar as engrenagens do mundo rodarem novamente. Sem mais eu por aqui para deter a sucessão da vida alheia. 

E, aqui, o tempo ainda não passa.

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~ por Autor em 03/08/2016.

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