Do pessimismo ontológico, ou, Mais amargo que o uísque

•04/12/2014 • Deixe um comentário

Não há nome para algo que ultrapassa as expectativas do que esperamos sofrer.

A decepção em alguns momentos poderia ser algo que chegaria aos pés de circunscrever, em sua limitada capacidade semântica, as fronteiras e intenções de descrever aquilo que ultrapassa o que pensamos que irá além do que podemos aguentar de sofrimento. Em alguns momentos, decepção soa como se fosse a melhor palavra, pois nada mais é a decepção do que acreditar. Engana-se quem pensa que decepção é enganar-se, e a ironia desse ridículo jogo de palavras se revela exatamente uma estratégia vil de descrever o que se pretende dizer e, ao mesmo tempo, a pura e simples realidade: decepção é, precisamente, acreditar e confiar. Engana-se por se confundir com o que seria algo. Quando você se torna insatisfeito com algo, já não o conhece, e a cognição é soberana nos processos de interpretação e – até mesmo – distorção da realidade. Mas  nem qualquer coisa serve por aqui, pois qualquer coisa é terminantemente rejeitada. Você comete um lapso, um descuido, um deslize na acepção que carrega os encargos jurídicos de errar por não conhecer exatamente do que se trata. Ninguém se decepciona por ter se enganado, mas sim por ter acreditado naquilo e, por consequência simples da crença burra e irracional que opera em nossa cognição, se deixar levar pelo sentimento de parco preenchimento concedido pelo ato de crer. Portanto, quem se decepciona, acredita; e, quem acredita, portanto, necessariamente aposta. Tendo toda aposta seu teor de desconhecimento do futuro, toda aposta implica probabilidade de erro, e é por isso que decepcionar-se não sugere a plenitude do engano, mas sim a crença que a acompanha, pois esta é a culpada. Ainda assim, dissecada a decepção, não é o suficiente.

Pois decepção não chega sequer a abarcar o que se sente.

Tristeza, em alguns casos, pode até soar como autossuficiente, pois às vezes alimenta-se de si mesma e sobrevive, tal qual uma espécie de canibal que digere seus iguais em prol de sua própria sobrevivência. Mas a tristeza não passa, nunca, da mera transformação miraculosa de uma série de de sentimentos fragmentários e periculosos em uma eterna sensação de decepção e humor deprimido. A tristeza, portanto, é menos canibal do que saprófita, pois subsiste em dejetos de coisas que já não mais são – ou ainda o são sob regime estrito de morte inevitável – e as transforma em  substrato para seu próprio veículo: um deflagar de sentimentos de autopiedade e decepção inevitáveis àqueles que carregam consigo deslizes cognitivos ou fragmentos de sentimentos tóxicos. Mas nem a tristeza serve, pois aquilo que não é nomeado a ultrapassa, ainda que beba da fonte dela.

Depressão talvez soe, para alguns, como algo que resolva os problemas, mas já carece, em si mesma de definições.

Por ser a mais cientificamente acurada, por ser um diagnóstico psiquiátrico, depressão poderia resolver o problema do inominável sentimento que assalta a garganta, trava o corpo e deseja aos outros o mal enquanto se rumina pelo que já se passou. Mas a depressão não é, nada mais nada menos, do que estar por baixo. Não no sentido de expressão popular, mas no sentido óbvio de estar para baixo, fundo, afundado, numa região de baixa altitude e longe dos ceus que agraciam com vitórias e conquistas. Há em alguma filosofia que se preste ao estudo clínico do sofrimento humano a ideia de uma isonomia entre o sentimento de estar por baixo e o estado por si de baixeza sentimental, física e psíquica. Ainda que não isonomia plena, há um certo intercâmbio entre o estar deprimido e o “estar por baixo”, e seria nesse ponto onde as pessoas detectam o inominável como estar abaixo do esperado. Tolos são aqueles que miram além da linha do horizonte, pois muitos já começam nela, e os que nascem muito abaixo do esperado por CNTP’s científicas ou linhas médias de energia humana jamais almejarão nada além de respirar o resquício de ar que os outrora campeões fizeram, e isto apenas porque aqueles deixaram livre o espaço e porque os perdedores costumam ser tão burros quanto teimosos a ponto de almejar sair do abismo em busca de pouco – quase nenhum – ar.

Mas a depressão mais produz doentes do que a capacidade geral da humanidade como um todo de produzir sucessos.

Estar por baixo não implica em estar necessariamente embaixo de alguém, de uma série de colocações e superposições de caráter, atitudes, parâmetros sociais de bem estar ou mesmo psicológicos de satisfação e felicidade pessoal. Depressão implica num estado de se colocar embaixo de todo um status quo de sucessos e vitórias que aqueles que detém a sorte de nascer com normalmente acreditam ser algo plenamente alcançável por aqueles que nascem aquém da linha do aprazível para a humanidade. Ser alguém que apenas está depressivo é algo tão ilógico como acreditar que alguém apenas perpassa o estado de obter comprimento, altura e largura, ou alguém que pode desenvolver uma velocidade, obter um peso ou detém alguma quantidade de calor que possa ser mensurável em temperatura. Depressão é menos um estado transitório do que uma capacidade de perceber-se fora dos limites práticos e técnicos da possibilidade de um grau qualquer de sucesso mínimo experimentado por poucos. É estar além – mais possivelmente aquém – da curva.

O sucesso mínimo da humanidade é mais sensível que o fracasso máximo da mesma.

Não só mais pessoas experimentam mais fracassos que a pequena quantidade de vitoriosos que vencem o aleatório e randômico jogo das probabilidades arbitrárias da vida como estes fazem parecer que a qualquer um é factível obter a mesma quantidade de sucesso mesmo havendo mais possibilidades de beirar a decepção, tristeza e sofrimento do que um futuro dourado de vitórias, sucessos e felicidades que nem o mundo virtual da potencialidade habitam . Há implícita nesta falácia não apenas a possibilidade de uma gradação de sucesso em si, como a própria noção de que haveria algum sucesso capaz de ser obtido, de alguma forma, de algum modo, de qualquer jeito. A variável do sucesso aparece aqui como uma não gradação, mas como algo discreto que habita o mundo da obtenção ou não obtenção: favorecidos a tem e desfavorecidos apenas a observam à distância. Não há meio termo naquilo que não oferece gradação, pois o mesmo conceito de variação sensível é falso em vida humana prática tanto quanto o de combustão o é em física. Não há meia ou parcial combustão tanto quanto não há meio ou parcial sucesso. Uma vez atingido o ponto da combustão, resolve-a instantaneamente como se resolvem os eventos absolutos. Não se grada aquilo que é discreto. Uma vez atingido o sucesso, este se torna sensível imediatamente como um processo físico. Ou o tem ou não o tem.

A conclusão lógica, portanto, é a de que fadamos nós a uma tendência geral de insucesso ao invés de vitória.

Fada-se ao fracasso assim como fada-se na Física a uma morte quente e inevitável por calor. A entropia é lei geral e inevitável pois a desordem reina nos sistemas mais do que a patética tentativa de cômputo dos seres de se auto-organizarem. Não há filosofia da complexidade, subjetividade antropocêntrica e pseudo psicológica, devir filosófico de base implicitamente humanista ou mesmo esperança vagamente metafísica amparada em deuses e diabos que confronte a inevitabilidade do cessar geral que é a vivência. E mesmo isso não abre portas para as vivências transitórias daqueles que acreditam que abraçar a brevidade como forma de supostamente encarar o fracasso esconderia sua finitude de modo a desviar a atenção do real sentimento de fim. Toda finitude é absoluta e fingir que ela lhe é vagamente plausível é negar que o inominável não tem como ser capturado ou compreendido, que a própria compreensão de um inominável não só não o torna possível como se demonstra uma tentativa ridícula de distanciar-se de todos os outros: é tudo um fim inevitável a todos.

Feliz ou infelizmente, àqueles que não se rendem às perspectivas de felicidade, isso tudo é uma boa piada.

Uma boa piada que habita o mundo óbvio da acidez do espírito humano básico. Uma capacidade de perceber que o mais básico dos instintos humanos é, de longe, aquele que mais próximo nos leva à realização de arbitrariedade e de escassez de sentido geral .Há na vivência humana uma finitude tão intensa e inerente que só os mais agraciados por um tipo randômico de sorte cruel com a cognição não percebem que eles são a exceção a uma regra cruel que imputa à maioria a necessidade óbvia de obterem o fracasso, pois sem um fracasso coletivo proeminente e eminentemente da maioria eles não seriam vagamente capazes de qualquer sensação de minoria vitoriosa e agraciada de se obter o sucesso, em qualquer “grau” que seja, em qualquer “variação” que exista.Todo sucesso é menos absoluto que a necessidade e prognóstico geral de se obter falha, como numa analogia cruel e insensível com a capacidade de se observar vida apenas neste planeta enquanto todo o universo pulsa silencioso, sem o mais vago sinal de vida que possa corroborar a nossa pequenez. Há menos sucesso do que fracasso, há menos habitabilidade do que regiões inóspitas no vasto universo sim fim. Logo, há menos sucesso e estabilidade do que possibilidade vaga de ser feliz e estar bem. Há, portanto. mais péssimos mais do que há menos bons menos.

É claro que aqueles amargos sabem disso com antecedência. Nada que uma garrafa de uísque não contenha em si.

Normalmente somos mais amargos que o uísque.

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Saia da minha cabeça.

•13/11/2013 • 1 Comentário

Saia da minha cabeça.

Você ocupa cada pedaço da minha cabeça, como se fosse um maldito fungo espalhando seus micélios por cada pedaço que consegue encontrar como fértil. Seria até fácil não te culpar, pois a fertilidade de uma mente, tal qual quando a terra úmida e nutritiva, é minha mente pensando em você, te dando capacidades e formas novas de estender seus tentáculos e prolongamentos vis por cada parte do meu pensamento, de modo que eu mal possa pensar em mim sem, em algum instante, pensar em você. É como se já fizesse parte de mim, e eu ainda me surpreendesse se você, tão entranhada em meus pensamentos, ainda aparecesse por ali, com seus inúmeros prolongamentos e rizomas tão aprofundados em mim como bom animal de reinos intermediários à biologia plausível é que me causasse espanto – ainda que um espanto perfeitamente esperado.

Saia da minha cabeça, por favor.

Você habita caba centímetro dos poucos neurônios que me restam. Cada prolongamento de axônios carrega impulsos elétricos enviando informações para te esquecer que competem com as imagens maravilhosas que meus olhos traidores registram de você, de modo a tornar a neurologia de minha doente mente algo que desafia a mais pura e bem estruturada teoria da evolução. Bainhas de mielina gostariam de atrasar os impulsos que carregam teu nome, e meu córtex pré-frontal anseia por inibir aqueles odiosos comportamentos que me fazem buscar você em cada mulher que eu olho, mesmo que de relance, mesmo que por vontade própria, mesmo que por saudade de não te ver nas últimas vinte e quatro horas. Você impregnou as poucas redes neuronais que restaram após exaurir meu cérebro pensando em você, e eu não em surpreenderia se meu cérebro dissecado tivesse giros e dobras soletrando seu nome.

Saia da minha, por piedade.

Eu já não aguento mais projetar em qualquer lugar um pedaço de você que esteve guardado em mim. Mesmo que eu ainda não tenha te tido por completo, em meus braços e só minha por todos os momentos necessários, eu anseio pelo momento que eu não mais veja numa cor qualquer o seu sorriso estampado, numa rosa perdida a sua potencial felicidade, numa mesa de restaurante o seu bem estar após uma noite agradável ou num lençol o seu corpo lânguido pedindo pro um abraço. Não consigo suportar você longe de mim, mesmo que seja aquilo que me signifique uma muleta, algo perdido ou mesmo aquilo que eu mais ansiasse por anos longos e tenebrosos da minha vida. Você me toma em cada instância em que eu poderia sequer desejar por sua presença, e por algumas vezes eu agradeço secretamente por você já estar em meus pensamentos quando eu, antes mesmo de desejar você por ali, te encontro em minhas lembranças, reminiscências e desejos. Vê-la próxima a mim num espelho parece algum tipo de psicose que eu expurgaria por muitos momentos, mas que eu agradeceria secretamente caso perdurasse o suficiente para me levar a um delírio onde pudesse viajar para sempre ao seu lado, descolado da realidade. Quem precisaria de realidade quando se teria apenas e tão somente você ao meu lado?

Saia da minha cabeça, eu imploro.

 Por vezes eu não me pergunto se cada circunvolunção de meu pobre e calejado cérebro não atende a uma demanda darwiniana de evolução, mas sim a uma necessidade de armazenar mais e mais quantidades de imagens suas, tanto as que eu imagino de nós juntos quanto as que eu vejo de você, sendo destas metade que imortalizo em minha mente apenas por pura e espontânea apreciação e metade por vontade de guardar, de modo a falsear memórias trágicas e posteriores sem você para me colocar ao seu lado, de forma a me enganar para um dia crer, com menos evidência que uma lembrança real e com mais força que um mero desejo, que o empirismo de um mundo cruel que não nos uniu pudesse se dobrar à minha simples vontade de me perceber ao seu lado, olhar-me numa vidraça aleatória de mãos dadas a você e a registrar-te como sendo minha companheira, de mãos dadas, sob a chuva, o sol, a tempestade e a bonança. Esses desejos loucos me corroem tanto quanto me corrompem, e eu imagino se a proximidade de letras de tais verbos não guardem, numa versão estatística dos fatos onde números se dobrem à vontade, uma realidade onde letras coincidem meramente entre si tanto quanto meus desejos não coincidem meramente com você.

Saia da minha cabeça ou eu irei explodir.

Já não cabe mais em nenhuma dobra da minha alma uma imagem sua. Já não é mais saudável te ter em cada mínima curvatura e dobradura de meu mundo interior, de modo que becos e esquinas de minha imaginação escondem perversas imagens de você rendendo-se a mim, de modos que eu sei que jamais faria. Existem inconscientes em mim que exibem insidiosas versões de nós juntos que eu jamais permiti, e que jamais permitiria de modo a não comprar aquilo que eu jamais venderia nem mesmo ao meu mais fiel espelho. Mesmo odiando a imagem que vejo nele todas as manhãs, nele jaz aquilo que eu espero que seja suficiente para te capturar, te guardar em mim e não mais te deixar fugir de meus esquálidos dedos e débeis forças de vontade. Há em você uma absurda força capaz de dobrar e subjugar aquelas forças que ninguém jamais conseguiu adequadamente nomear, e que é capaz de dar nome àquelas tão escondidas que ninguém jamais seria capa de postular sem te possuir, algo que eu jamais permitiria em vida.

Pela última vez, saia de minha cabeça.

Já não arregimento forças capazes de lidar contigo. Sua presença me toma a força de um furação, e cada célula do meu corpo trabalha num modo de produzir energia para processar sua presença em mim. Tanto de modo a execrá-la deste cercado biológico, evolutivo e aleatório que insistem em subjetivar e aprofundar continuamente e sem evidências, como em guardá-la em algum recanto inexplorado pelo psicologismo ocidental, na esperança que eu a retome quando tudo isto ruir. Masoquismo ou amor, isso tudo se remete a uma versão dos fatos onde você só pertenceria a mim, e, mesmo livre para viver sua vida sem que eu jamais interferisse na sua beleza, sensualidade e delicadeza rústica e selvagem, todos saberiam que você me pertenceria – por pura e espontânea vontade – por direito apenas meu de reivindicar-te como sendo minha. minha princesa, rainha e amada. Como sendo minha, apenas minha, tal qual eu anseio ser seu.

Não tenho mais como pedir que deixe minha cabeça.

Mas, por favor. Deixe um pedaço seu aqui. Após esta tormenta, eu adoraria te encontrar novamente.

Irresistível

•29/10/2013 • Deixe um comentário

Irresistível…

Acho que até hoje não consegui achar uma palavra melhor para resumir o que me vem à cabeça quando eu sinto sua presença próxima a mim.

O fato é que eu não resisto de forma alguma a você. Pode achar o exagero que for, eu sinceramente não ligo. Pode até ser que seja coisa de momento, algo que vá durar algumas semanas, uns meses ou até mesmo um ano, pode ser que seja questão de uso e desapego, pode ser que desencante depois que a mágica se fizer. Pode ser que eu seja louco e que tudo o que eu vejo na verdade é distorcido por uma lente criada pela minha própria vontade para satisfazê-la de modo pleno e mentiroso. Pode ser que você tenha sobre si algo tão poderoso – chame de mágica, química, personalidade, como quiser – que eu simplesmente não tenho barreira para erguer contra. Pode ser que seja absolutamente tudo que eu acabei de dizer, que para mim não fará a mínima diferença. Você é irresistível para mim e eu não consigo abrir mão disso. E nem quero.

Se for exagero, acho que é o exagero mais bem moldado da face da terra. Não tem como eu exagerar algo que é tão simples em sua existência e ao mesmo tempo tão complexo no modo pelo qual se desencadeia. Coisas paradoxais assim, quando exageradas, tendem a perder o seu sentido. Mas quando vem à tona você, eu e essa mágica que ocorre, mesmo tentando exagerar a coisa não perde um milésimo do que ela é, apenas se torna impossível exagerar algo tão bem encerrado em sua própria existência. Seria como tentar deixar uma linha reta mais reta, um círculo ainda mais circular… Sua atração sobre mim por si só já é o que é, não precisa que seja aumentada ou diminuída,  refeita ou desfeita, não precisa de interferências. Ela simplesmente ocorre e não há nada que a modifique, em tempo algo. E, se isso for um exagero, sinceramente não me importo em continuar exagerando assim, já que pelo visto funcionou perfeitamente até agora.

Se for algo de momento, creio que é o impulso mais forte e irrefreável que já tomou conta de mim. E não cito a palavra impulso de forma figurada: assim como um impulso alavanca uma força num momento inicial para que no momento seguinte a energia do movimento seja dissipada quase que instantaneamente, esse desejo meu que me arrebata e me força a querer você me impele a chegar mais perto, a te querer de todas as formas, de modo que eu fico ali, congelado, paralisado na eternidade do instante que se leva do deslocamento inicial até o fim do impulso, preso entre o início e o término de algo que por si só nasceu para o seu derradeiro fim. E mesmo que isso seja dissipado depois, mesmo que tudo acabe, mesmo que a magia suma, que a química acabe, que seu feitiço sobre mim desencante de maneira súbita, ficarão as marcas em minhas memórias de que um dia tamanha força tomou conta de mim, assim como a espada que fere um guerreiro por um breve instante, mas que deixa sua marca numa cicatriz tão eterna quanto memorável.

Se for loucura da minha parte, sinto em dizer a vocês todos que eu nunca me senti tão confortável sendo louco do que quando eu era visto como um comum, um são. Creio que, se for loucura, achei na vida o maior tesouro: o eterno vislumbre de algo que, mesmo os outros me dizendo que estou errado ou  fora de mim, aquilo pelo qual sinto essa atração de alguma forma é tão maravilhoso que vale a pena qualquer coisa para obter aquilo, até me sacrificar a pouca sanidade que restava. Sinto que, se for loucura, há nessa loucura um misto uma lógica fria e insensível com uma sensatez tão absurda para os comuns que eles se levam a crer que a frieza e sabedoria sobre um sentimento não pode ser tão grande se não for o nível mais baixo da consciência: a completa falta de vínculos com o real. Mas, mesmo que você não me queira mais, eu ainda sinto aquele desejo enorme de estar ao seu lado e te fazer bem quando assim você me dá uma brecha. Como pode tamanha certeza sólida e firme como uma rocha ser posta no patamar instável e quebradiço de uma loucura pueril e mundana? Loucos são eles! Se o caso é ser louco de verdade, abraçarei feliz minha condição de debilidade mental, sem reclamar.

Se for você e seu corpo, sua mágica e sensualidade, seu feitiço seu jeito, sua química e personalidade, se for você a fonte dessa atração e não algo simplesmente contido em mim ou na minha mente, creio que qualquer mulher no mundo iria querer estar no seu lugar. Tamanha força de atração sobre alguém, não só nos níveis amorosos ou sexuais, só foi atribuída antes na história a deuses e entidade sobrenaturais, a espíritos e demônios, a anjos e seres mágicos, coisas tão intangíveis que

Que me chamem de louco, de insensato, de ridículo, de maluco… São todos adjetivos tão bem recebidos por mim nesta situação que eu faço questão de incorporá-los inteiramente ao que eu sou e como eu ajo, tratando de deixar claro que naquele instante que eu faço isso por vontade própria, apenas para calar a boca dos intrometidos e satisfazer a opinião deles acerca do modo que eu ajo. Tenho plena certeza de cada ação minha, mínima e sutil que seja, pois premedito-as de modo a erigir um significado final a tudo a que elas prestam: idolatrar você. Não há uma saída para isto que não passe pela lógica irrefutável de que a irresistibilidade é por si só o horizonte final de qualquer resistência. A futilidade em criticar ou desmistificar esta máxima talhada na pedra é tão óbvia que seu sentido só pode escapar à percepção daqueles que nunca antes sequer vieram a experimentar um instante onde algo irresistível lhes passasse diante dos olhos.

E torno eu, mais uma vez, a tentar encontrar palavras outras que tentem resumir o que você é para mim. Mas não há erros nem descaminhos, pois eu sempre volto para a mesma conclusão.

Você é, para mim, irresistível.

O padrão é o que importa. A surpresa nunca vale a pena.

•28/10/2013 • 3 Comentários

Ansiava por coisas diferentes, mas hoje em dia mal anseio pelo mesmo, por medo dele diferir minimamente a ponto de me deixar com medo.

Há de se convir que as pessoas anseiam pelo novo assim como anseiam por alimento. Há aqueles que anseiam pela novidade, pela surpresa e pelo aleatório, como se estes lhe fossem oxigênio a inundar os alvéolos dos preciosos pulmões, e como se a tal irreverência de uma aleatoriedade – ironicamente premeditada – fosse lhes garantir algum tipo de diferença que não lhes fosse menos necessária que uma rotina e mais necessária que o próprio ar que eles respiram.

Notem como há um erro básico e crasso nisso: Nada há de mais básico e necessário à nossas vidas do que exatamente aquilo sobre o qual não exercemos controle algum.

Hordas furiosas de joviais – e por vezes já velhos – entusiastas da surpresa continuam a defender que o que lhes espera é o novo. Que o que lhes entorpece os sentidos é justamente a repetição sem fim de rotinas e padrões, de premeditações e ciclos sem fim de dia-a-dia, como se estes lhes fossem venenos crueis e ministrados a conta-gotas em suas finas e débeis veias, por carrascos como enfermeiras más, promotoras de uma expansão sem fim de sofrimento e ceifamento de suas liberdades. Há a vã crença de que no novo, na liberdade, há a libertação, ainda que tais palavras só estejam próximas por compartilharem, matematicamente falando, um número igual de letras em comum, e em algum momento dispostas de forma que as palavras soem parecidas.

Eis exatamente o erro destes que acreditam que há alguma forma de liberdade existente na aleatoriedade e na surpresa.

Estas, aos olhos daqueles que realmente são inteligentes, são exatamente aquilo que quebra a liberdade. Estas são exatamente aquilo que mina os esforços de homens comuns e preocupados com infindáveis problemas do mundo, e que encaram na aleatoriedade e na surpresa precisamente o que precisam combater de modo a criar algo mais estável que um castelo de cartas erguido por um infante entusiasmado ou que um castelo de areia porcamente erigido próximo demais de ondas furiosas em plena maré alta. A verdadeira vida não é – e jamais poderia ser – vivida próxima de aleatoriedades e padrões não demarcados, mas apenas numa forma de mundo onde linhas e retas fossem precisamente demarcadas e estudadas por fórmulas mais precisas que relógios atômicos e toda sorte de formulações matemáticas capazes de conter os mais altos níveis de entropia.

Mas, é claro, como sempre, os odiosos defensores da surpresa jamais descansam em sua odiosa tarefa de supor, diariamente, que o que eles fazem é, além de ser minimamente sério e sustentável, é, na melhor das hipóteses, algo válido. E aqueles de alma séria e coração calejado o sabem que jamais o seria.

Pois vejam: a aleatoriedade, agora já sem rodeios associada à surpresa tanto defendida, é exatamente aquilo que nos desprepara. Qualquer defesa do despreparo e da surpresa é hipócrita quando esconde que aqueles que a insuflam em seus castelinhos de areia sempre tem um ou dois planos b ou c escondidos em seus bolsos, cartas na manga tão infratoras quanto aqueles ases que os mitológicos cowboys de faroeste importado insistiam em esconder em suas roupas de modo a gerar combinações impossíveis de royals straight flushs que até o mais libertário dos defensores da surpresa julgaria indecoroso e ridículo de se manter. Pois bem, seus planos, tais quais os ases dos cowboys sem idoneidade, são exatamente aquela cereja do bolo que eles insistem em colocar no final da mistura, mas que não passa de uma forma ridícula de esconder que eles mesmos seriam incapazes de esconder a insatisfação perante uma surpresa que eles mesmos não estivessem esperando.

A verdade é apenas esta: a surpresa só é interessante quando é esperada. Afora este mundo específico de probabilidades, toda surpresa tem capacidade plena e inexorável de destruir e de magoar, e esta é uma realidade que inutilmente tentam os defensores da aleatoriedade defender, como se pudessem mascarar que num dado de seus lados houvesse mais do que seis probabilidades estáticas de realização. potencialidades definidas as quais eles teimam em esconder.

E, por qual motivo ou falo isto? Esperar uma surpresa de uma chuva inesperada a banhar o rosto é tranquilamente aceitável, quando não belo pela poesia de se esperar que os inúmeros pingos de chuva signifiquem uma melodia, eles mesmos ou em seu conjunto inesperado e belo, úmido e renovador. Esperar que um cachorro perdido de rua dê uma focinhada em sua panturrilha desavisada não só denota a beleza de um gesto belo de carinho perdido como esconde a potencialidade de um mundo a ser explorado, onde o afeto possa ser distribuído por ai entre seres que jamais o experimentaram verdadeiramente até aqueles que já o anseiam por tanto tempo quanto vivem – ou até mais, se você acreditar em transcendências. Eu poderia citar até mais quatrocentos e noventa e sete bons exemplos e deixar-vos na expectativa de fechar o número com um quadrigentésimo simbólico e relaxante, mas não seria necessário. Todos eles seriam exemplos menores de como a surpresa nos é apenas e tão somente boa quando ela é menor. Ela só nos é – potencialmente – boa quando não afeta mais do que sentimentos periféricos. Pensamentos automatizados por modos centrais de agir de nosso ser, instâncias primitivas de nosso desenvolvimento que reverberam através de estruturas periféricas e limítrofes do psiquismo, o próprio contato entre o que somos e o mundo selvagem e inexplorado, misterioso e perigoso que nos cerca; todos estas são as mínimas formas de afecção que a aleatoriedade pode fortuitamente ser capaz de gerar algo de bom. Todo o resto, tudo aquilo que nos escapa a mera consciência e volição, está fadado a ser destruído pela surpresa.

E por qual motivo eu defendo esta bandeira tão irrestrita contra uma mera defesa daquilo que nos surpreende?

Pergunte àqueles que defendem aleatoriedades e surpresas se gostariam que suas rotinas mais enraizadas fossem obstruídas. Perguntem sem gostariam que suas sobremesas favoritas viessem algumas vezes podres, que seus passeios favoritos fossem interditados por obras empoeiradas e sem fim, que suas roupas favoritas fossem colonizadas por fungos bolorentos e incapazes de ouvir nosso mais sincero pedido para que se retirem. Nada disso resistiria quando a surpresa e a aleatoriedade, o inesperado cruel, avançasse sobre nossa incapacidade de esperar que estes fossem dominados pelo que nós não queremos que aja sobre nós. Quando a aleatoriedade invade o padrão, instala-se o caos e o desespero. A rotina é sempre atacada como a vilã, quando na verdade ela é exatamente aquela donzela que mais precisa ser resgatada da torre distante guardada pelo feroz dragão, guarnecida pela pior sorte de armadilhas e instrumentos voltados para a falha do heroi – supondo que algum heroi da nova era seria portador de coragem o suficiente para defender tão entorpecida causa quanto a rotina.

Por isso eu defendo que a verdadeira vida é aquela que defende padrões, e não aleatoriedades: vivemos todos a enaltecer e idolatrizar padrões. Defendemos apenas hipocritamente a surpresa quando ela nos serve para quebrar o pouco de marasmo que nos gera uma rotina segura. Culpamos, de forma cruel, a torina, por uma falha que é nossa: qual seja, a capacidade de sair minimamente da rotina e dar uma saracoteada breve fora do que nos torna seguros. Ao invés disso, culpamos exatamente a cabana que nos protege de nos impedir de sentir a chuva, quando na verdade a culpa é nossa de não ir lá fora tomar na cara alguns pingos de chuva arriscando o resfriado. Preferimos culpar a cabana, nossa proteção, do que assumir a culpa de nossa omissão: somos incapazes de dar três passos para fora da segurança sem antes culpar a estrutura que nos protege, querendo nós ou não. E falo coletivamente, como um grupo de medrosos ensinado assim, e não como indivíduos amedrontados isolados.

Não há muito o que defender. Aqueles que acham bonito serem surpreendidos são precisamente aqueles que nunca foram surpreendidos da pior forma. Uma morte, o distanciamento de um amigo, ou a perda de um muito estimado amor.

Eu, como pertencente à este último grupo, fico comigo, sozinho, entocado em minha cabana.

Prefiro não sentir os pingos da chuva do que arriscar, novamente, perder algo que eu tanto estimo. 

A surpresa não vale a pena. Nunca valeu tanto a pena. 

Que se fodam as rosas.

•15/08/2010 • 2 Comentários

Uma vez outras me disseram que me amavam. Uma vez.

Nunca na vida isto chegou perto de ser verdade. Sabe porque? O amor simplesmente não existe. Nada mais é do que um amontoado de reações químicas simultâneas que te fazem pensar que você precisa de outro ser vivo que não seja você. O amor não é nada mais que a ação de meia dúzia de moléculas, feromônios que ativam o desejo de cópula não mais do que momentâneo. O amor nada mais é do que uma tradução bizarra e absurda de um simples mecanismo evolutivo feito para que os machos e fêmeas da espécie humana fiquem juntos tempo o suficiente para que a prole advinda da cópula seja criada, alimentada e ensinada a ponto de sobreviver sozinha. O amor não passa de um trânsito desordenado de neurotransmissores levando a informação errada para o lugar errado, disparando cascatas de sinalização celulares capazes de emburrecer e tornar um organismo egoísta e independente um ser dependente de contato, toque, atenção e, principalmente, mais daquela droga em forma de sentimento, o amor.

Amor não existe. Eu me convenci disto da primeira vez que tive meus sonhos destruídos.

Tudo o que você produz, todos os pensamentos e energias que você redireciona para um só ser que não é você, todo o esforço gasto para mendigar mais alguns milésimos de atenção, tudo aquilo que você inutilmente faz para chamar a atenção da pessoa que você ama, cada maldito e infeliz centímetro que você gasta se deslocando da segurança e conforto da sua casa em busca de mais um modo de criar algo ínfimo e ridículo, mas que seja o suficientemente capaz de causar a curvatura momentânea nos lábios do objeto de seu desejo. Tudo isto não passa de um esforço inútil, uma inutilidade biológica, um absurdo etológico. É a suspensão e o sacrifício de todas as faculdades mentais capazes de gerar em cada um de nós o mínimo de bom senso necessário para perceber que não há alma neste mundo que valha mais do que a sua. Tudo isto é uma forma estranha e cruel de auto-flagelação, um constante torturar-se, um infinito processo masoquista de busca incessante e improdutiva de conseguir se fazer feliz por meio da felicidade de outro.

A cada vez que eu desistia, um novo amor me aparecia. E eu me agarrava a esta oportunidade como um doente terminal a uma cura fantástica.

O problema está justamente em acreditar que um novo amor pode curar o antigo. Basta dizer que a velha frase “Tudo passa” é uma lei tão certa quanto a certeza única e inegável de que vamos morrer todos um dia. O amor um dia sempre acaba, e ele tem a infeliz capacidade de gerar sentimentos tão negros e nefastos quando vai embora que deveria ser necessário que cada um de nós tomasse uma dose amarga de consciência injetada nas veias após cada copo doce e fatal de amor. O saldo nunca é positivo, as coisas sempre terminam da maneira mais terrível para um dos lados, e de uma maneira um pouco menos pior pro outro. Sempre quem sai perdendo é aquele que ainda ama, e quem já não ama mais precisa suportar o fluxo constante de sentimento que ainda cai sobre ele, mas que é desperdiçado e jogado no chão, como restos podres de algo que um dia fora bom, nutritivo, capaz de deixar algo ou alguém feliz. O amor sempre sobra, e quando amargura passando da validade, vira ódio, raiva, tristeza, depressão e, sobretudo, sofrimento, que marca fundo em cada um feridas no coração que jamais cicatrizam.

O meu problema era achar que a cada novo amor, esse amor seria o anjo que me resgataria. Só que eu esqueci que anjos não causam tentação.

Anjos não existem. Nada virá te salvar quando você estiver solitário e desesperado, pedindo por uma mão, por um pedaço mísero que seja de atenção. Nada virá te socorrer, a não ser aquela torrente maligna de sentimentos vis que sempre retornam. Tu só encontras como abrigo para a tempestade de dor que castiga sua vida um punhado podre e entorpecido de  sentimentos, recorrentes e astutamente preparados para lhe acudir quando você mais precisa de qualquer outra coisa, menos deles. Dessa maneira, o que parecia ser apenas o fundo de um poço se revela um túnel cada vez maior e mais largo. Ele vai cada vez mais fundo, mergulhando em águas de desespero que você jamais achou que pudesse ser capaz de respirar dentro, e cada vez mais capaz de comportar teus medos, inseguranças, decepções e amores perdidos. A bagagem de sofrimento apenas aumenta, e o peso sobre você é tamanho que você desfalece e cai, juntando-se a uma multidão de corpos como os seus, abandonados e esquecidos pela dor da perda de um amor tão falso quanto as promessas de salvação que eles traziam consigo.

Dessa forma, eu sofri o que ninguém jamais acha que vai sofrer. E demorei a aprender a lição.

As pessoas demoram a aprender uma lição, seja ela qual for. O amor não existe, é um esforço inútil, um saldo eternamente negativo, uma esperança vã e ilusória. Não adianta esperar que em seu jardim cresçam rosas quando você só vê pragas, ervas daninhas e terra seca e estéril. O máximo que conseguirá serão flores conspurcadas, irônicas, zombeteiras com seus fracassos, apenas te lembrando que você nada mais faz a não ser vender mais um pedaço da sua alma em busca de mais uma tentativa de salvação, e acaba por perdê-lo nas mãos do seu mais novo “amor”. Quando você ama, você se dá a alguém, um pedaço seu fica com a outra pessoa. Esse pedaço é irrecuperável, e faz você ver, depois de muito tempo, o quanto perdeu durante o tempo apaixonado. Teu reflexo no espelho se distorce, você se torna irreconhecível. Por fim, o que você achava que era um jardim não passa de um duro solo de cimento frio, seco e estéril, assim como seu coração. Assim como seus sentimentos. Assim como sua vida.

Não há ninguém para ouvir seu choro. Ninguém se importará se você sofrer. Amor não existe. Ele nunca virá para te salvar. Todos viemos para este mundo sozinhos, e é sozinhos que partiremos, sem chance de ser diferente. Caso contrário, chegaríamos com alguém do noso lado, mas isto nunca aconteceu. Não acontece. E não vai aparecer.

Cabe a você apenas esquecer o que aconteceu. Fechar seu coração, enegrecê-lo, torna-lo gélido e inacessível, para que nunca mais caia no mesmo erro de antes.

Foi o que eu fiz. Abandonei de vez a sucessão de falhas que era minha vida.

Amá-la era perda de tempo. Amá-la era dor.

Que se abram as portas de uma nova vida, sem mais fracassos e esperanças malignas. E que se fodam as rosas, eu não preciso de amor.

O meu amor…

•20/06/2010 • 1 Comentário

… não deveria existir.

Culpe-me se realmente quiser ou se sentir alguma necessidade, eu não me importo. Fato é que meu amor não deveria existir.

Mas ele existe, e eu fico às voltas com isto.  Algo que deveria ser sublime, belo, algo que deveria ser comparado até memso a uma instância divina de existência e manifestação, algo que deveria ser a demonstração suprema e irrestrita de devoção e lealdade, aquilo que tem sido, é e será por muitos anos o assunto de todos os poetas divinamente inspirados, o assunto das mais belas donzelas,  o objetivo de vida de cada alma solitária, aquilo pelo qual lutam os homens, combatem os heróis, traem os vilões, aquele sentimento que já derrubou reis, que moveu exércitos, que criou e acabou com países e povos, aquilo que faz um homem se perguntar o porque dele ainda estar ali, existindo, o que faz alguém se sentir importante em meio a este imenso universo que beira o infinito. O mesmo amor que inspira, que causa felicidade, compaixão, alegria, mesmo amor que eu ouvi que existia desde que eu era pequeno, não passa de uma grande farsa.

Uma farsa, uma falácia muito bem disfarçada e posta atrás de panos e engodos, uma mentira extremamente bem articulada, que já foi contada tantas e tantas vezes que agora nem mais só uma verdade é, mas passou a ser aquilo que move, cegamente, cada alma, e lhe serve de combustível para o inexorável caminhar rumo à decepção e mágoa. O amor que eles clamam ser divino, ser superior, ser capaz de mudar o homem para melhor e despertar nele o lado bom, não passa na verdade de um veneno, uma praga, uma doença que impregna cada um que resolve acreditar nela, uma infestação que macula as mentes inocentes dos que se desesperam por uma companhia que garanta que sua estadia breve e dolorosa neste infeliz e amaldiçoado mundo seja um pouco menos sofrida e um pouco mais brilhante. O amor na verdade conspurca cada pedaço de bondade e inocência na mente dos homens, enegrecendo-as e cegando-as, deixando apenas um pequeno, mas irritantemente invencível, pedaço de esperança, a pior parte da existência humana.

O amor é o sentimento mais traiçoeiro, as sombras da psique humana, a única força capaz de tornar alguém dependente de outro alguém de uma maneira tão forte que se torna uma necessidade patológica, uma doença psíquica, um vazio doentio e absurdo,algo que nem ao menos deveria existir. O amor deixa as inteligência de lado e promove uma estupidez de espírito e raciocínio digna de nota, que chega até a tirar o fôlego daqueles poucos sensatos e bem intencionados que observam os apaixonados tomando suas decisões e seguindo seus caminhos tortuosos e sem volta. Amar é como navegar num navio sem leme e botes salva vidas, onde você não é o condutor, e as bússolas estão avariadas. Mapas não existem, apenas uma indicação falha de onde você talvez vá chegar. Suas velas estão velhas e furadas, e o vento cada dia sopra menos. Tudo conspira para o dia fatídico onde você se vê sozinho num barco que na verdade não navegava, apenas estava à deriva. O otimismo da viagem a princípio cega o bom senso e faz parecer que o vento voltará a soprar, que a vela tem conserto, que a tripulação está escondida e que não é necessário um leme. Mas ai você se descobre abandonado, sem forças e sem razão para continuar.

Eu sou mais um náufrago que ficou à deriva no mar depressivo e enganador por onde os navios do amor navegam. Me descobri só e fraco, abandonado e sem motivos para viver, e desde então o que me sobra é remoer o tempo perdido nessa vida, que se mostrou ainda mais sentido depois que eu perdi a única coisa que eu um dia já pensei em dar valor mais do que minha própria e tão mal vivida existência. Tudo isto por culpa do amor, que me impediu de ver onde eu estava. Amando, eu pisava nas mais ardentes chamas e queimava meus pés no mais quente fogo, mas mantinha minha cabeça erguida, alcançando as mais altas nuvens e enxergando os cumes inacessíveis. Agora, sozinho, eu sofro as queimaduras incuráveis, e ainda me sinto sem ar por respirar um ar tão rarefeito que quase me fez morrer.

Ela me deixou, e não foi por algum motivo gerado por algum tipo de erro ou ação minha. Ela me deixou apenas porque é do amor esta fatalidade de um dos lados sempre ser o abandonado, e o outro sempre aquele que abandona. É do amor causar os corações partidos, assim como é do amor garantir que pelo menos um deles saia intacto e inteiro, para que o ciclo se repita tantas vezes quanto forem possíveis. É do amor essa natureza maligna e infernal, que enegrece a alma dos homens e lhes traz o único alívio momentâneo para a dor da perda e do abandono. É no ódio e na amargura, é no ardor da raiva e na necessidade de vingança que jazem as drogas capazes de inebriarem os sentidos dos largados e deixá-los um pouco menos mal. A força motriz do corpo sem alma e esquecido se torna a chama escura que queima os corações despedaçados, gerando o movimento a caminho da retaliação e depressão. No fim, o que sobra é sempre um homem vazio, despedaçado, com a alma lacerada e com um corpo que não responde, que não se move, que não apresenta nenhuma ação. O fundo do poço é onde eu estou, e o fundo do poço é de onde eu jamais sairei.

Ninguém ousa descer tão fundo. Ninguém que não tenha estado num poço tão ou mais profundo jamais ousa descer tanto em instâncias tão inexploradas da vida a ponto de olhar para um ser esquecido como eu. E não me importo de estar parecendo extrapolar uma singularidade de uma vida para o âmbito da generalização e das leis universais. O que aconteceu comigo me basta para ser suficientemente verdade a ponto de me garantir uma lição que não deve ser jamais esquecida. O amor dói, o amor marca, o amor deixa feridas abertas que sangram até secarem seu corpo, e então se fecham para que nunca mais nenhum sangue quente entre nele, matando você e te tornando um cadáver fétido e lentamente pútrido, te tornando nada mais que um farrapo distorcido e mal cuidado, um pedaço ínfimo do que você um dia vislumbrou ser. Eu hoje não sou nada além disso, e ainda entendo que o abandono dela foi o fim da minha vida.

Uma carta que não deve ser lida, contendo um texto que não deveria ser escrito, por um remetente que não esqueceu seu passado, para um destinatário que não será postado. Uma verdade que não deve ser revelada, um sofrimento que não deveria ter permanecido contido, uma solidão que não deveria ter sido tão prolongada, uma salvação que poderia ter sido executada. Um amor que não foi correspondido, um homem que não tem mais lágrimas para chorar uma perda.

Eu ainda amo você…

Mas o meu amor não deveria existir.

Eu te amo!

•25/04/2010 • Deixe um comentário

Sim, eu te amo!

Eu te amo, meu amor… Eu te amo, eu sinto todo o amor do mundo por você! Eu te vejo passar e fico pasmo em perceber que não há nada no mundo mais belo que você! Tuas passadas leves e furtivas, teu sorriso encantador e apaixonante, teus cabelos esvoaçantes e sedosos, seu olhar sedutor e misterioso, que revela apenas para quem te entende a mulher sensual e atraente que você é! Esse teu corpo tão belo e curvilíneo, tão perfeito que parece que foi esculpido para ser a morada do pecado, da luxúria e da tentação. Ah, e tua voz, essas palavras que você profere num tom sussurrante e provocante, que atravessam o ar até meus ouvidos como se fossem apenas palavras inocentes, mas que na verdade são as instruções para o caminho da perdição… O movimento do teu corpo,de tuas mãos, braços e pernas, a perfeita sincronia hipnótica que em faz esquecer por alguns instantes de que você é tão mortal como eu, mesmo sendo bela e divina como uma deusa! Mulher, se tu soubesses o quanto eu te amo por cada um desses detalhes!

Eu te amo,e não tenho medo de admitir isso! Jamais, pois não há nada que inspire em alguém tanto amor como você esse teu jeito sedutor. Ah mulher, tu já sabes que eu te amo, só não tem como saber as medidas desse amor tão grande! Essa paixão que devasta o meu ser! Que me consome, que acaba comigo, esse fogo que causa um incêndio em minha alma, que cada vez que se alastra por um novo pedaço de mim acha mais combustível para continuar queimando… Esse desejo intenso e incomensurável, que cega minha razão e me dota de forças até então inexistentes! Essa força mais que divina que me impulsiona a querer estar sempre cada centímetro possível mais perto de você, apenas o suficiente para poder te ver passar todo dia, como se estivesse eu assistindo de camarote a apresentação da mais bela dançarina das terras mais longínquas, a odalisca misteriosa e bela que roubou o meu coração de homem deslumbrado!

Eu te amo, e eu me sinto bem com isso! Esse amor que eu sinto por você me inspira, me faz querer que o meu melhor sempre apareça para todos, apenas para provar que minha alegria e felicidade vem por sua causa, a estrela solitária que brilha imponente no meu céu escuro e sombrio! Você se tornou a minha estrela guia, minha bússola, meu mapa, minha guia através das trevas que cercavam a minha vida! Você me salvou de um abismo profundo gerado por mim mesmo, você preencheu cada espaço, cada canto, cada fresta e buraco, cada possível lugar vazio que ainda existia na minha antiga vida sem sentido. Você deu a cor à tela em preto e branco, você delineou os traços outrora selvagens, você lapidou o diamante bruto. Você, e só você, foi capaz de melhorar o que até então parecia sem perspectivas e sem propósito, aquilo pelo qual nem eu mesmo lutava por, mas que agora eu faço questão de tornar melhor a cada dia. Você mudou minha vida!

Eu te amo! Ah, e como isso soa tão bem… Como é bom deixar escapar pelos meus lábios essas três palavras toda vez que eu falo contigo… Como é bom saber que você escuta meus sentimentos! É reconfortante para mim saber que a minha musa, aquela que me inspira, que torna meus dias mais iluminados e alegres, minha deusa infinitamente bela e caprichosa, aquela que eu amo, sabe do que eu sinto de mais profundo e verdadeiro, do fundo do meu coração. Como é bom, e eu repito porque isso me deixa mais feliz, saber que você existe, já que assim eu sei, a cada segundo que passa, que o amor que eu sinto tem sentido e propósito, e que tudo que eu faço eu faço pensando em como eu posso agradar você de uma forma nova e diferente, de um jeito que me faça conseguir arrancar mais uma vez mais um daqueles teus sorrisos inebriantes e  inigualáveis.

Eu te amo! E sem medo de que os outros me achem estranho ou louco! Eu te amo e sei que você sabe que esse meu amor por você é sincero e puro, livre de quaisquer outros motivos que me levariam a tal sentimento. Eu te amo porque você é uma mulher forte, poderosa, sensual e intrigante, eu te amo porque você é você, e sendo assim se torna irresistível para mim! Você meu vício, a droga que eu escolhi para me viciar! E pouco me importo se achem isso exagerado ou anormal, pois eu sei que por mais que eu escreva, diga, grite, fale, simbolize ou expresse, não há modo de tornar inteligível esse meu sentimento por você, apenas posso pensar em demonstrar ele com um beijo, aquele que eu tanto quero te dar desde que vi sua face bela e incrivelmente linda atravessar a minha vida.

Eu te amo, mulher! Tenho aqui comigo guardado cada momento que passamos juntos, cada instante que eu te fiz sorrir, cada instantes em que você me fez sorrir, tanto por me deixar feliz como por apenas existir e estar em minha vida. Agradeço por cada instante que você esteve ao meu lado, pois só nesses momentos eu me sentia pleno, livre, um homem de verdade, do lado da única mulher no mundo que, para mim, é verdadeiramente bela e perfeita. Cada memória do tempo em que estávamos juntos, cada vez que você também disse que me amava, isso tudo está no fundo do meu coração, para jamais ser esquecido ou sequer deixado de lado.

Eu te declaro o meu amor com esta confusão de palavras, malfadada a se esvair com o tempo em meio a qualquer profusão de papéis ou outros textos que possam haver por ai… Mas não me furto o direito de te fazer apenas uma pergunta, já que me vejo no direito de saber da minha donzela a resposta para tal indagação.

Porque você me deixou?